Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image

Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

Arriba!

“A liberação pelo riso é essencial”

“A liberação pelo riso é essencial”

Pode parecer paradoxal, mas o riso é uma coisa séria! É um tema realmente relevante. Se vocês olharem os Oito Pontos do Prajnaparamita, eles terminam com um sorriso. Eu considero crucial, é como se não fosse possível atingir a liberação senão pelo riso, de fato.

Eu até explico para vocês como é essa mecânica. Faz parte do processo ilusório nós gerarmos fixações. As fixações, de modo geral, são fixações com respeito a como nós reconhecemos o ambiente, como nós reconhecemos a nós mesmos e aos outros. Essas fixações não são apenas referenciais, elas têm uma energia, elas têm uma tensão dentro, e essas tensões são origem de vários tipos de enfermidades no nível psi e também no nível grosseiro, somático.

Mas quando nós, através do processo da contemplação, do próprio Prajnaparamita, da própria meditação, olhamos para as construções que fizemos e para o tempo em que ficamos presos nessas construções, nós temos um alívio. É como se fosse um sorriso: “como é que eu pude ficar preso por tanto tempo”? E aquele riso tem uma alegria junto. Por outro lado, por exemplo, se nós temos regiões em que a gente não consegue rir, significa que estamos dando muito peso àquelas regiões, estamos considerando aquilo muito real, muito denso. Então, esse é um referencial, é um obstáculo para, mais adiante, superar aquela situação.

Algumas pessoas não entendem como a gente pode rir da desgraça, mas a gente não ri da desgraça, a gente ri da liberação da sensação de desgraça. E a sensação da desgraça parece super séria. Algumas pessoas consideram que as suas desgraças são super sérias, na verdade, elas vivem a partir da dor que um dia elas sentiram e elas surgem como identidades a partir dessas dores. Isso é um obstáculo, é um problema, é uma dor sobre a dor. Além da dor que elas já têm, elas constroem uma dor adicional. Talvez, nesses casos, o caminho direto de rir daquilo não seja o melhor caminho. Mas, num certo momento, se o caminho que a pessoa seguiu funcionou, ela tem um alívio, e nesse alívio a pessoa ri de si mesma.

Esse caminho da liberação pelo riso é essencial, especialmente para os praticantes, porque a gente precisaria rir do nosso próprio esforço de atingir a iluminação. Esse esforço de atingir a iluminação constrói uma identidade, e essa identidade é muito parecida com as identidades do mundo. Então, nós não vamos atingir a liberação enquanto a gente não puder liberar as identidades que se constroem dentro disso.

Nem sempre é o riso, mas são coisas paradoxais. Eu assisti um grande mestre budista que estava sendo traduzido por Sogyal Rinpoche, chamado Trulshik Rinpoche, já falecido. Ele já era velhinho, assisti a uma palestra dele para um número muito grande de pessoas. Depois da apresentação que Sogyal Rinpoche fez dele, elogiando muito, contando que ele passou a vida em retiro, contando muitas realizações dele, ele começou dizendo: “olha, eu não tenho essas qualidades, eu não sou essa pessoa, eu não tenho isso”. Confesso que, no momento, fiquei decepcionado. Se ele, com aquele super currículo, não tinha aquilo, qual seria a nossa chance?

Mais adiante, eu percebi que o ponto central era justamente não imaginar que tem alguma identidade que atinge a liberação. Todas as nossas identidades são falhas, têm problemas, a gente precisa ter essa humildade em relação às nossas identidades, elas são partes das bolhas de realidade, das ilusões. Nós não somos as identidades, nós somos aquilo que gera as identidades. Então, essa dimensão que produz as identidades da vida como nós conhecemos, isso é o que nós somos, nós já somos isso, a gente não precisa construir ou atingir, não é uma grande montanha que a gente sobe e, no fim, é coroado em algum lugar. A gente não vai ser coroado.

Ao final, nós desaparecemos enquanto identidade. A gente precisaria rir da nossa própria identidade fazendo esforços e se liberar dessa identidade que faz esforços. Eu lembro de uma foto de Trungpa Rinpoche que eu gosto muito, ele está vestido com um saiote escocês, uma sainha curta, com as pernas de fora, e ele dizendo: “Let phenomena play!” ou seja, deixe os fenômenos se manifestarem. É muito bonito isso, os fenômenos! Como é que a gente pode olhar para uma foto, que é papel e toner, e rir? Isso é muito profundo.

Um dos meus mestres zen, Tokuda Sam, ria muito. Ele contava piada e desconstruía as coisas através do riso. Moriyama Roshi também, ele era muito engraçado. Quando a gente estava com Moriyama Roshi a gente ria o tempo todo. Só que ele ria dele mesmo, o tempo todo. Ele contava todas as coisas em que ele se atrapalhava, que ele fazia errado, no fim ele deixava todo mundo muito à vontade, por que a gente pensava: bom, se o mestre fez tudo isso, eu estou salvo. O Tokuda Sam também, era maravilhoso, pelas histórias que ele vivia, pela forma às vezes verbal e não verbal pela qual ele quebrava a seriedade aparente das coisas. Os mestres ficam sempre quebrando isso.

O riso ajuda a quebrar justamente a seriedade que a gente vai dando a tudo e a tensão que vai surgindo.

A essência do riso, da brincadeira, da liberação, é a vacuidade. A gente deveria olhar com muito cuidado essa conexão do riso com a vacuidade. É um bom canal para a pessoa entender a vacuidade. A gente ri, mesmo que a gente não entenda que aquilo é vacuidade, porque aquilo era vazio antes. Ou seja, nós temos uma ilusão, uma aparência e ela se quebra. Quando aquilo é rápido, a gente ri; quando não é rápido, a gente abre uma liberação interna. Então, o caminho budista e o caminho do riso estão juntos. Não tenham dúvida disso.

Transcrição: Clarissa Gleich
Edição: Stela Santin

Confira abaixo o vídeo completo da Roda de Conversa de Lama Padma Samten com convidados na Rádio Ação Paramita no dia 30/06/2020 sobre o tema do riso.