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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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“Na ante-sala dos infernos está escrito Aqui Tudo é Felicidade”

“Na ante-sala dos infernos está escrito Aqui Tudo é Felicidade”

Como o Buda explica, os fatores favoráveis e desfavoráveis são artificialmente construídos. Por exemplo, quando nós entramos em alguma coisa favorável, a gente deveria ter muito, muito cuidado. Porque o aspecto favorável esconde o inferno que vem na sequência. Porque quando entramos em uma coisa favorável, estamos entrando na panela dos infernos. Essa é uma coisa curiosa, super estranho dizer isso. Mas, por exemplo, na porta dos locais de sofrimento, não tem uma placa onde diz “Local de sofrimento, cuidado, afaste-se”. Não, a placa diz “Felicidade, entre”. É isso o que diz. E a gente entra e está tudo bem. Só que, enquanto estamos naquele lugar e parece que está tudo bem, quando aqueles fatores todos aos quais nós nos associamos estão consolidados, uma vez que as várias circunstâncias são sempre móveis, naquele momento, podemos entrar em sofrimento. Porque basta que aqueles fatores sejam retirados ou um ou outro seja retirado que nós vamos ter sofrimento direto. Por outro lado, quando os fatores começam a se mover, nós temos angústia. Porque eles se movem e nós lutamos para que aquilo fique arrumado. Estamos sempre lutando para que as coisas fiquem mais ou menos arrumadas. Isso é angústia, estresse. Quanto mais coisas as pessoas tiverem, mais coisas elas têm que cuidar. Portanto, mais angustiada e ocupada a pessoa fica. Porque ela tem que cuidar de um número muito grande de coisas.

Teve uma época que eu usava a analogia do artista no circo girando pratos e sempre botando mais pratos para girar e sempre tentando manter todos girando. Tem uma hora que todos os pratos caem. Essa é a nossa vida. Quando estamos jovens, botamos muitos pratos para girar. Vamos envelhecemos, colocamos menos pratos, e, no fim, estamos só respirando. Em cada um desses casos, como nós temos uma ligação com algo transitório, impermanente e sentimos que somos aquilo, temos angústia, aflições, dores, tristeza, lamentação. É inevitável.

Se a gente olhar, por exemplo, para as tristezas e as causas das tristezas, a gente pode ter certeza: nós tínhamos a expectativa de que as coisas andassem em uma outra direção. Do mesmo modo, a lamentação, a dor e a angústia, todas elas estão ligadas a alguma coisa que olho em um padrão e lamento, tenho dor ou agitação, porque aquilo está tomando alguma outra direção. Por isso que eu digo: se encontrarem uma porta que diga: “Aqui tudo é felicidade”, com certeza é a ante-sala dos infernos. Por quê? Porque nos ligamos com várias coisas e aquelas coisas começam a transitar e começam os problemas. É inevitável isso. Essa é uma visão pessimista. Essa não é a visão última, mas é a visão que explica as dores, a angústia, a lamentação, a tristeza.

Quando estamos no âmbito da tristeza, lamentação, dores, etc., não estamos no âmbito da lucidez. Quando falamos para as pessoas que não estão no âmbito da lucidez sobre o funcionamento do mundo, podemos explicar para elas que as dores vêm desse modo. Mas o Buda não fica preso nisso. Ele não vai olhar isso. Ele vai adiante. Ele está trazendo a superação disso. Ele não vai dizer: porque falo em dores, lamentação, tristeza, angústia, é que a tristeza, lamentação, a dor e a angústia sejam verdadeiras, últimas e reais. Não, elas são construídas. Como o Buda diria no “Sutra do Diamante”, ainda que ele use as palavras, ele usa as palavras como palavras. Ele se refere a mundos onde isso está presente. Porque as pessoas estão operando desse modo, as pessoas surgem de um certo jeito onde isso é inevitável. O Buda vem para socorrer, para nos levar adiante disso. A purificação seria retirar esse conjunto de identificações para superar a tristeza, a lamentação e para o desaparecimento da dor e da angústia.

Trecho da  palestra “O Caminho Direto para a Atenção Plena”, oferecida por Lama Samten no dia 12 de setembro de 2020.

Transcrição: Guilherme Ikeda

Edição e revisão: Stela Santin