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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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O CEBB Salvador e a biblioteca

O CEBB Salvador e a biblioteca

Biblioteca do CEBB

Durante a vida do Buda, as pessoas guardavam na memória o que ele falava. Quando Buda desapareceu, elas registraram no papel. E surgiu uma vasta obra escrita baseada nos ensinamentos orais do Buda. Muitos seguidores escreveram livros…


Há pouco menos de um ano cheguei no CEBB de Salvador após uma pesquisa na internet. Não me lembro quais foram os caminhos da pesquisa que me levaram a este centro budista e não a outro, mas consegui chegar até aquela porta num centro comercial de Amaralina. Tudo fechado, ainda não estava no horário do Budismo para iniciantes como constava no site, mas encontrei ali sentado na porta, muito ereto, um rapaz chamado Ricardo, com um livro de capa vermelha entre as mãos: Meditando a vida, de Lama Padma Santem. “Quem é?”, perguntei curiosa. Então, durante uns quinze minutos, aquele rapaz de voz tranquila e pausada foi me explicando um pouco sobre o CEBB, o Lama, o livro…

Por hábito, quando a porta do CEBB foi aberta, procurei pelos livros. Lá estavam eles, empilhados e um pouco escondidos num canto. Naquele dia estava sendo feita a leitura entre todos os presentes, iniciantes ou não, do livro Meditando a vida e assim, pouco a pouco, linha a linha, fui descobrindo mais coisas sobre o budismo praticado por aquele grupo (depois vim a saber que era uma sanga!).

Ao final do meu primeiro encontro com a sanga pedi à facilitadora para levar um daqueles livros emprestados para saber mais sobre tudo o que tinha ouvido. Li com uma certa avidez vários livros que encontrei ali: O sentido da vida, do Dalai Lama, Vida e morte no budismo tibetano, de Chagdud Tulku Rimpoche, Meditando a vida, de Padma Samten e outros. Mas, com o passar do tempo percebi que estava lendo demais e praticando de menos como sempre me acontece quando me interesso por um tema. Então decidi voltar ao primeiro livro que me foi apresentado no curso de budismo para iniciantes, estudá-lo a fundo e tentar começar a praticar o que estava escrito, senão não teria sentido.

Alguns meses de convívio com a sanga e descobriram o meu segredo: quase vinte anos trabalhados numa biblioteca. Fui convidada a organizar nosso pequeno mas importante acervo. Com a ajuda da bibliotecária Iara Breda, gaúcha como o nosso Lama, com a classificação dos livros e sugestões para a ficha de cadastro e outro empurrãozinho via internet da bibliotecária Isabela Garcia, do interior de São Paulo, e mais o apoio de várias pessoas da sanga (Ana, JoAnn, Fernanda e Ricardo), pudemos “inaugurar” nossa biblioteca.

No retiro de abril, em Salvador, com a presença do Lama e da sanga, apresentamos uma parte do trabalhado realizado com os nossos livros; uma parte, porque de repente começaram a brotar livros no CEBB: budismo para crianças, CDs com mantras, artigos de revista sobre o Dalai Lama… Todos reivindicavam sua roupa nova para a inauguração: a etiqueta de classificação e a ficha catalográfica.

Ao contrário do que se possa pensar, há muita vida num lugar onde há livros e estes circulam de mão em mão… Uns vão e voltam, outros ficam adormecidos em alguma gaveta, outros vão parar nos “Achados e perdidos” e alguns até ganham novas casas e novos donos. Por este e outros motivos os materiais de biblioteca são catalogados e classificados.

Usamos a classificação utilizada pela maioria das bibliotecas, conhecida como CDD (classificação decimal de Dewey) que organiza de 0 a 900 todo as áreas do conhecimento. Assim, em qualquer biblioteca, pode-se ir diretamente ao número 294.3 ou 294.34 e se encontrará o assunto budismo. Também há uma tabela (de Cutter), que atribui um número a cada nome de autor. O Meditando a vida, livro do nosso Lama, recebe a numeração 294.34 S193m. “S” de Samten e “m” de meditando. Também temos um carimbo, uma ficha de devolução e outra de catalogação com todos os dados do livro.

Como nossa biblioteca é especial pelo acervo que contém, seguimos alguns procedimentos baseados nas orientações do Lama que, em suas duas visitas anteriores a Salvador, falou-nos sobre os cuidados que se deve ter com os livros sagrados.

Daí, a partir de uma idéia “emprestada” de uma praticante budista, encontrada numa revista pela nossa facilitadora Ana Ricl, preparamos uma caixa, que foi forrada com um tecido fino com cores em vermelho, azul e dourado, para abrigar os livros de ensinamentos budistas cujos textos são sagrados. Do mesmo modo, cada livro que está dentro desta caixa possui uma capa que o envolve.

Qual a necessidade de se organizar este material? Primeiramente, para beneficiar a mais pessoas que poderão ter acesso aos textos, para ler, estudar e conhecer mais sobre o budismo. Segundo, conforme me foi ensinado no CEBB, é necessário que aprendamos a ver o valor dos ensinamentos que estão contidos nestes livros, pois nem todo mundo e, nem em todos os lugares, as pessoas têm acesso fácil aos textos como nós estamos tendo. Finalmente, como destacou minha querida facilitadora Ana, além de saber lidar com este acervo para preservá-lo devemos lembrar que eles pertencem a uma cultura com ensinamentos muito antigos e com mais de vinte séculos.

Para encerrar quero dizer que organizar uma biblioteca budista só me trouxe felicidade e, mais que beneficiar a sanga com a organização dos livros, sinto-me beneficiada por ela, porque cada dia que passa entendo melhor o que é tomar refúgio no Buda, no darma e na sanga. É uma experiência preciosa.

Transcrevo aqui um trecho do livro Meditando a vida, do Lama Padma Samten, que dá a correta dimensão da importância destes livros.

“Durante a vida do Buda, as pessoas guardavam na memória o que ele falava. Quando Buda desapareceu, elas registraram no papel. E surgiu uma vasta obra escrita baseada nos ensinamentos orais do Buda. Muitos seguidores escreveram livros, sempre lembrando que «a sabedoria não está nos livros». Estudamos os textos minuciosamente e sabemos de cor que «a sabedoria não está nas palavras». (…) Parece contraditório traduzir textos sabendo que a sabedoria não está lá. É que, ainda que não esteja, os textos podem umedecer as sementes de sabedoria que temos naturalmente. Essa é a sua função.”

* Artigo de Rosângela Ponce, técnica de biblioteca e aspirante a praticante de budismo, em colaboração com Ana Ricl.