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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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O Velho Tronco e a Primavera

O Velho Tronco e a Primavera

Foto de Renato Teixeira da palestra de Lama Padma Samten durante a Semana do Meio Ambiente e lançamento da Revista Bodisatva número 31 em junho de 2019 no CEBB Porto Alegre. Lama Samten usou a pintura de Kaz Sensei (na foto à esquerda dele) para expressar o ensinamento sobre o velho tronco e a primavera. 

Abaixo a transcrição da palestra de Lama Padma Samten no encontro virtual promovido pela UniPaz “Um novo começo? Desafios da transição: quatro pontos de vista sobre recomeçar”, ocorrido no dia 8 de agosto de 2020, com a participação de Roberto Crema, Lydia Rebouças e Lia Diskin.

 

O significado do velho tronco

Esse título que relaciona o velho tronco com a primavera é um título desafiador, é uma imagem que o grande Mestre Dogen do Soto Zen usa. Eu acho uma imagem muito feliz, especialmente neste tempo em que nós falamos de transição. A transição não é um fenômeno individual, é um fenômeno coletivo. E essa abordagem coletiva não é uma abordagem muito fácil. De modo geral, quando nós trabalhamos as questões espirituais, nós trabalhamos as questões de transformação interna, e as questões externas são trabalhadas muitas vezes de uma forma difícil.

Então, o Mestre Dogen traz essa imagem: o velho tronco é a linhagem dos budas, dos patriarcas, dos mestres, independente do budismo. Então, o velho tronco é aquilo que os mestres têm trazido, é o conjunto dos mestres desde sempre. O velho tronco significa esse movimento constante. De tanto em tanto ele floresce. Eu acho essa imagem é muito bonita. É quando os mestres iluminados aparecem. Nós sabemos do surgimento do Buda Sakyamuni e é muito lindo entendermos que no próprio imaginário budista nós temos muitos budas que vieram antes e muitos budas que virão depois.

Quando nós estudamos os ensinamentos de Dudjom Rinpoche na linhagem Nyingma isso fica claro. Os mestres surgem em vários planos, sempre beneficiando os seres. Eles estão em momentos importantes da história da humanidade e do mundo como ele vai se constituindo. Então, esse velho tronco repentinamente floresce. Quando os seres olham as flores, eles entendem: “É primavera.”. O mestre Dogen diz: “Então, os seres veem as flores e quando eles olham em volta, repentinamente tudo é primavera.”

Eu acho essa imagem super bonita, porque e la se refere a um fato muito profundo, que é o seguinte: quando operamos a nossa mente, nós temos um foco. De modo geral, nós olhamos apenas esse foco, estamos conscientes do que aparece nesse foco. Mas esse foco opera em conjunto com os referenciais todos que estamos utilizando. E esses referenciais eventualmente não estão claros para nós, mas eles operam. Então, por exemplo, quando vemos uma flor no velho tronco, imaginamos “é primavera”. E quando internamente tomamos esse referencial da primavera, olhamos em volta e vemos primavera em tudo. É isso que o mestre Dogen diz.

Essa imagem nos ajuda a entender o que poderia ser uma transformação no nível individual e no nível social também. Quando nós vemos a primavera individualmente, isso é uma transformação pessoal. Mas repentinamente as pessoas olham as flores e veem a primavera. Então, a grande transformação não vem pelo foco da mente, pelo esforço do foco da mente, mas especialmente pela sensação de que agora é um tempo de primavera. Esse é um ponto que considero super especial dentro desse esforço de examinar os desafios da transição e em que direção nós vamos.

Aspectos grosseiro, sutil e secreto

Poderíamos dizer que os referenciais e o surgimento da primavera são o aspecto sutil da operação da mente. O aspecto grosseiro é o que nós vemos a partir de olhos, ouvidos, nariz, língua e tato e também a mente condicionada. Nós temos ainda um nível secreto. O nível secreto é justamente a liberdade natural. Se nós estamos com uma sensação de inverno e de obstáculos por todos os lados, de repente, nós podemos operar com a primavera. O que nos possibilita sair de uma experiência para outra? O que nos permite essa transição? O fato de que a natureza da nossa mente é totalmente livre, ela nos permite construir as realidades, nos permite direcionar a nossa energia.

Nós temos essa natureza livre, que termina se referenciando a um conjunto de elementos, que se chama mente fundamental, os condicionamentos da mente. Nós frequentemente não vemos esses condicionamentos, não os reconhecemos; eles operam como se fossem obviedades, como as aparências que as coisas têm. Por exemplo, primavera, verão, outono, inverno. Parecem ser algo que está do lado de fora, mas não é o caso. Essas aparências dependem de uma disposição interna nossa que termina produzindo essa visão de mundo. Esse é o aspecto sutil, que produz o aspecto grosseiro, que enfim é o que nós vemos. O aspecto sutil que utilizamos é uma expressão do aspecto naturalmente livre e luminoso da nossa mente primordial. Então, o budismo vai tomar isso por base. As coisas que vamos fazer serão de algum modo sempre referenciadas ou explicadas por esses aspectos.

Vou trazer inicialmente uma percepção das transformações individuais: como podemos produzir transformações individuais e em que direção elas vão. Então, vou me referir especialmente ao aspecto sutil, quais os referenciais que nós vamos utilizar para que as coisas funcionem melhor. E depois, darei algumas sugestões de como podemos direcionar esse aspecto da primavera, como as coisas podem andar desse modo.

Transição individual

O Buda vai trazer essa compreensão muito profunda, que pode ser olhada em muitos diferentes níveis, com maior ou menor profundidade, que é o eixo do próprio ensinamento: as Quatro Nobres Verdades, sendo que a quarta nobre verdade é o caminho de oito passos.

Todas as quatro nobres verdades são completamente cruciais. A primeira nobre verdade aparentemente é pessimista porque ela trata do sofrimento. Eu acho a primeira nobre verdade muito libertadora porque ela vai tratar do fato de que todas as coisas, todos os empreendimentos, todos os funcionamentos em todas as direções, todos os indivíduos, inevitavelmente se defrontam com o que é chamado de duka. A tradução para as línguas ocidentais, para o português, como “sofrimento”, não é completamente justa, porque duka é algo que pode surgir em meio à felicidade. De modo geral, nós somos mais facilmente dominados pelos aspectos de felicidade que posteriormente viram sofrimento. Então, todos os seres estão inevitavelmente imersos em duka uma vez que eles surgem pelos doze elos da originação dependente, ou seja, eles surgem de modo condicionado. Isso foi palmilhado pela mente do Buda, ele explicou como isso ocorre e os detalhes disso tudo. Acho que é um grande mérito para nós podermos viver num tempo em que esses ensinamentos estão visíveis, aparentes, disponíveis para nós. Existem muitos grandes mestres que deram esses ensinamentos e seguem repetindo. Os ensinamentos estão completamente acessíveis e claros.

Às vezes é mais fácil entender através de exemplos. As pessoas, por exemplo, se vinculam a times de futebol, porque elas tiveram algum resultado positivo de algum modo, elas viram algo muito bom acontecendo, então elas se vinculam. Mas é inevitável que uma vez que a pessoa se vincule a esse time de futebol, a pessoa terá também muitas frustrações. Esse processo de atração, fixação e os sofrimentos subsequentes é duka. Então, duka surge por vezes como sendo o sofrimento, às vezes surge como o engano que produz essas fixações todas. Então, o Buda vai dizer que todos nós estamos presos a isso. Nós temos várias razões para termos frustrações e problemas. Essas frustrações e problemas sempre vêm das nossas fixações a aspectos que são transitórios, que funcionam por um tempo e cessam. Esse é o primeiro aspecto.

O Buda, tendo atingido a iluminação, se perguntou: o que causa isso? Quais as causas disso? Qual é o obstáculo que os seres todos enfrentam? Ele percebe então aquilo que é chamado “originação dependente”.

De forma muito breve, olhando alguns dos elos da originação dependente, podemos dizer que a partir da sensorialidade – olhos, ouvidos, nariz, língua e tato, e a mente associada a olhos, ouvidos, nariz, língua e tato – nós produzimos aquilo que é o contato com o mundo aparente ao redor. Esse contato é filtrado a partir das sensações de gostar e não gostar. Na medida em que desenvolvemos essas sensações de gostar e não gostar ou mesmo indiferença, isso é chamado vedana. Vedana por sua vez vai produzir trishna, ou seja, gostando ou não gostando, nós temos apego ao que gostamos e temos rejeição ao que não gostamos, é completamente natural. E aquilo ao que somos indiferentes, nós já nem vemos.

Por exemplo, nós não vemos a poluição que estamos causando. Não sabemos para onde vão os efluentes na cidade onde estamos morando, não sabemos de onde vem a água, de onde vem a comida; aquilo parece que é muito natural, muito simples, mas nós temos um impacto muito grande no nosso movimento. Mas não vemos. O que vemos e gostamos, nos fixamos, o que vemos e não gostamos, nós rejeitamos. Então essa base é o que vai nos levar ao que se chama de upadana. Upadana é como se fosse uma maldição, ou seja, todos nós estamos constantemente buscando o que gostamos e nos afastando do que não gostamos. E nos mantemos incessantemente se movendo desse modo. Nos sentimos uma identidade dentro de um mundo, constantemente nos movendo. Isso faz parte das causas do sofrimento, que é a segunda nobre verdade. Não tem uma solução.

Na medida em que vamos obtendo resultados a partir de upadana, é natural num certo momento sentirmos que somos alguém. Nós temos esse nascimento e a partir desses recursos, desses métodos e habilidades que desenvolvemos, nós nos sentimos empoderados para vivermos e nos movermos no mundo. Quando nos movemos dentro do mundo isso já é jeti. Na medida em que nos movemos no mundo, é como se estivéssemos atravessando um deserto infinito; num certo momento, nós vamos sucumbir. A nossa energia aos poucos vai cessando e se reduzindo e nós não temos a capacidade de atravessar esse deserto. Aí surge jana-marana, a sensação de que nós envelhecemos, perdemos a vitalidade, não temos como ir adiante, as imagens de futuro para nós desaparecem, e nos sentimos adoecendo e eventualmente já nos encaminhando para a morte.

Essas várias sensações são consideradas ilusórias no budismo. O próprio Buda explicou isso. Por exemplo, elas dependem do aspecto grosseiro e do aspecto sutil. Mas no aspecto secreto, o aspecto da liberdade da mente, nós não temos propriamente esse desaparecimento. Não temos porque o aspecto secreto da mente não tem características e portanto ele não cessa; ele é auto-surgido e incessantemente presente. Num certo momento, esse ponto se torna o foco central das práticas, a localização desse aspecto que está além de todos os bardos.

Usando essa palavra que a Lydia Rebouças trouxe, que foi transmitida a ela pelo Pierre Weil, podemos descrever por vezes 4, 5 ou 6 bardos, de acordo com como dividimos as experiências. Esses bardos são situações ilusórias, sendo que há ensinamentos budistas sobre como podemos atingir a liberação da mente no bardo da vida, que é a maior parte dos ensinamentos, mas também como podemos alcançar a clareza quanto à natureza última durante o bardo do sonho, da meditação, ou durante o bardo da morte, que é quando nos aproximamos da morte, durante o bardo do pós-morte, que é quando o pulso cessa, a respiração cessa e a mente segue, durante o bardo do renascimento, que é o caminho de volta, ou seja, vamos reinsetar uma vida no nível grosseiro. Guru Rinpoche dá ensinamentos detalhados sobre como nós podemos manter a clareza da mente focando o aspecto primordial não nascido, portanto, não perecível, que não muda. O ensinamento é sobre como podemos manter essa meditação.

Dentro desse universo é que funciona a experiência das causas do sofrimento. O Buda entende essas causas nesse contexto. Ainda que tenhamos uma sensação de morte, de desaparecimento e portanto de sofrimento, nós temos uma natureza que não passa por essas várias situações aflitivas. Um exemplo de situação aflitiva é nós sofrermos dentro de um filme no cinema, ou na TV, nas telas com temos hoje. Esse tipo de sofrimento não é um sofrimento real, mas ele se instala e aparece. Preferimos que as coisas melhores da história aconteçam e não as piores, nós temos escolhas. Esse processo é muito extraordinário, a arte nos ajuda muito a entender os aspectos ilusórios e luminosos da nossa própria mente.

Quando entendemos a origem do sofrimento, surge a terceira nobre verdade. Nos damos conta de que a origem do sofrimento não é sólida, ela é construída. Portanto, poderíamos ultrapassar o sofrimento. Isso é maravilhoso! Essa compreensão da terceira nobre verdade.

Então surge a quarta nobre verdade, o caminho. O caminho começa com essa sensação feliz, interna, que nos enche de energia, de que o sofrimento pode ser superado, de que os seres podem ultrapassar o sofrimento. Eventualmente nos sentimos empoderados, felizes, energizados, decididos a ajudar os seres a ultrapassar o sofrimento. Isso é o resultado das três nobres verdades: o surgimento do caminho em que nós aspiramos seguir desse modo e beneficiar os seres.

Na medida em que temos essa aspiração, nós naturalmente enviamos as ações não virtuosas, isso se torna claro. Não vamos ficar prejudicando os seres que estamos tentando ajudar. Por outro lado entendemos que precisamos fazer ações positivas, estabilizar a nossa mente e desenvolver a sabedoria com respeito a tudo que ocorre em todas as direções. Isso termina constituindo o restante do caminho até o oitavo passo.

Vou comentar brevemente como poderíamos andar melhor no mundo. O Buda vai nos ensinar esse ponto, isso faz parte do nobre caminho, é como se fosse uma clarificação do quinto passo do nobre caminho: como deveríamos andar no mundo, como que os Bodisatvas andam. Os Bodisatvas são aqueles que têm essa motivação de produzir benefícios aos outros seres, de modificar a sua própria mente, de atingir a liberação do engano e desenvolver a capacidade de ajudar de fato.

As quatro qualidades incomensuráveis

Podemos praticar as quatro qualidades incomensuráveis: compaixão, amor, alegria e equanimidade. Às vezes, elas são apresentadas em outras ordens. Mas, essencialmente, na medida em que nós vemos o sofrimento dos seres, nós poderíamos aspirar que eles não precisassem passar por esse sofrimento.

No budismo, nós sempre lembramos das mães. Vocês imaginem aquele tempo, um tempo de grande dificuldade, em que cada criança se mantinha viva, porque uma mãe lutou duramente para mantê-la viva, alimentando-a, protegendo-a das dificuldades. Nesses tempos de agora também, as mães continuam heroínas, os pais também, fazendo esforços para manter as crianças atendidas e desenvolverem as várias habilidades que elas precisam para se moverem no mundo. Não é uma coisa simples. Então, quando olhamos as nossas mães e nossos pais, nós lembramos com carinho deles, aspiramos que eles não passem por todos os problemas que estão desenhados na primeira nobre verdade, que se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento, que encontrem as causas da felicidade e a própria felicidade. Olhamos desse modo, aí brota compaixão.

Especialmente, nós poderíamos definir a compaixão e a grande compaixão. A grande compaixão é quando nós temos uma compreensão clara das causas do sofrimento e da possibilidade de liberação do sofrimento. A compaixão é quando estamos sensibilizados pelas dores e buscamos ajudar os outros naquelas dores do tempo e das circunstâncias que eles estão vivendo, sem entender necessariamente as circunstâncias amplas das causas do sofrimento na forma como elas são descritas no budismo desse modo profundo.

Então, os bodisatvas surgem manifestando a grande compaixão. As quatro qualidades começam por compaixão, esse interesse positivo e amoroso pelos seres. Isso já indica a segunda das quatro qualidades, que é o amor. O amor é um ponto super importante, quando nós ouvimos os mestres de sabedoria falando sobre isso, entendemos que o amor não é o amor que vem pelo agrado ou desagrado, não é o amor que vem nesse contexto que é chamado de vedana, gostar e não gostar. O amor é especialmente conectado ao reconhecimento da natureza luminosa, da natureza lúcida, da natureza espiritual e profunda de cada ser. Quando olhamos os nossos filhos com afeto, isso é muito bom. Mas se nós conseguirmos olhá-los e reconhecer essa natureza profunda, essa mente profunda dentro deles, isso é o amor verdadeiro. Isso inclui um respeito, é algo muito elevado.

Então, essa é a nossa prática: praticamos compaixão e amor. Quando isso surge desse modo, nós descobrimos dentro de nós uma energia intensa. Essa energia surge como sendo alegria. Se nós não olharmos as pessoas com esses olhos, essa alegria não aparece. Mas se olharmos desse modo, nós terminamos descobrindo que esse olhar de compaixão e de amor não vem de um lugar comum, não vem dos condicionantes comuns, não vem da roda da vida. Ele vem de uma compreensão de bodicita, da compaixão dos bodisatvas que nos inspiram. Na medida em que surge essa visão, surge também uma energia que nos acompanha. Essa energia já uma benção dos budas, uma benção dos bodisatvas. Esse energia se torna um eixo dentro de nós. Desse modo, nos mantemos em ação constantemente.

Aqui temos três qualidades incomensuráveis: compaixão, amor e alegria. Então, surge equanimidade. A equanimidade surge como uma descrição clara de que em todo o lugar que nós pousarmos a nossa atenção, nós vamos manifestar isso. Nós não vamos pensar “com o pessoal do nosso time, manifestamos compaixão e amor; com os outros, não”. Mas em todas as direções que olharmos, olhamos com compaixão, amor e com essa alegria natural. Então, temos equanimidade, olhamos todos os seres desse modo, em todas as direções e tempos.

As seis paramitas

Isso seriam as quatro qualidades incomensuráveis. Então, de modo geral, se nós temos compaixão, isso prepara o amor. Se temos compaixão e amor, isso prepara a alegria. Se temos compaixão, amor e alegria, isso é a base para a equanimidade. Se temos compaixão, amor, alegria e equanimidade, isso é a base para a generosidade. Surge dentro de nós esse espírito de beneficiar todos os seres mas não só a generosidade, surge aquilo que é chamado de perfeição da generosidade, que está explicado no Sutra do Diamante. A perfeição da generosidade trata do fato de que quando nós manifestamos generosidade, não sentimos que aquilo é generosidade. Não conseguimos dizer “bom, o outro é beneficiado, e eu não”. Não tem separação. Todos são beneficiados por aquele gesto. Então, o Buda vai dizer que não há “alguém que ofereça” e não há “alguém que receba”. Não tem separação entre aquele que oferece e aquele que recebe. A generosidade atinge a perfeição nessa sensação, de que não há efetivamente uma separação entre aquele que oferece e aquele que recebe, existe uma não dualidade, eles surgem juntos nesse fenômeno feliz de generosidade onde compaixão, amor, alegria e equanimidade brilham como uma energia.

Então, temos compaixão, amor, alegria, equanimidade e generosidade, quando isso aparece, naturalmente surge aquilo que chamaríamos de moralidade. A moralidade não é uma regra que estamos obedecendo. Se estamos operando com compaixão, amor, alegria, equanimidade e generosidade, a moralidade é inteiramente natural. Ela flui sem nenhum obstáculo, nós não vamos prejudicar os seres que estamos beneficiando, vamos olhar esses seres de forma muito elevada. Dessa sensação podem brotar todos os referenciais de moralidade, mas eu não preciso dos referenciais de moralidade para praticar moralidade.

Temos compaixão, amor, alegria, equanimidade, generosidade e moralidade, esses seis elementos. Quando esses seis elementos estão estabelecidos, o que vai surgir em nós imediatamente? Se estabelece a paz com uma energia que brilha. Isso é muita felicidade e algo muito profundo. Por que aparece essa paz? Porque para todas as direções que estamos olhando, estamos olhando de forma elevada. Então, é como se o mundo tivesse mudado, porque temos esse olhar agora. Olhamos em volta e vemos a terra pura dos bodisatvas. Temos uma experiência de mundo diferente, não temos uma experiência de mundo adversarial em que estamos lutando. Estamos beneficiando os seres em todas as direções pelo menos com o nosso olhar. Então, surge a paz.

Temos compaixão, amor, alegria, equanimidade, generosidade, moralidade e paz, e então surge energia constante. Ou seja, a partir da paz estamos estabilizados com energia constante, com um olho que brilha com uma dimensão de ação positiva de mente e de corpo, no aspecto grosseiro e no aspecto sutil.

Quando a energia constante se estabelece surge o quê? Concentração da mente, a mente fica concentrada. Vocês imaginem: como essas condições favoráveis todas se estabeleceram, a nossa mente tem concentração. Se não tivéssemos praticado tudo aquilo antes, não conseguiríamos meditar. Essa concentração da mente é diana. Se eu não conseguir esses vários fatores eu já sei, a minha meditação não vai funcionar. Estarei operando querendo uma coisa e querendo me afastar de outra. Mas, neste momento, porque praticamos longamente isso, e temos essa energia presente, nós sentamos calmos e a concentração se estabelece.

Quando a concentração se estabelece surge o sexto dos seis paramitas, surge a perfeição da sabedoria, Prajnaparamita. Então, eu tenho compaixão, amor, alegria, equanimidade, generosidade, moralidade, paz, energia constante, concentração e sabedoria, esses dez elementos. Então, esse é o nosso caminho; é o caminho da felicidade e da lucidez. Esse é o caminho do bodisatva.

Tendo trazido esse aspecto, que eu considero ser o aspecto da transição individual do velho tronco em direção à primavera, como podemos fazer as transições a nível coletivo? Como isso pode ocorrer?

Transição coletiva

Essa transição vem da compreensão que poderíamos chamar de mundo. Quando nós descrevemos o mundo, ele está ligado a uma sensação de normalidade. Eu aprendi com o Pierre Weil e o Roberto Crema que há essa expressão maravilhosa que é a normose. A normose é uma sensação patológica de normalidade, é como se as coisas tivessem andando bem ou mal numa certa direção, mas elas são aquilo que nós estamos vendo. No budismo aprendemos a desconfiar das aparências, especialmente as aparências coletivas. Essa experiência é muito importante, ela é tratada longamente dentro da física, especialmente a física quântica, quando vamos trabalhando com a noção de complexidade, que é próxima da noção de complementariedade que surge na física quântica.

Ela é trazida na arte, no teatro: os atores são apresentados, entram em cena, vestidos, tem um cenário, e a história serve de base para entendermos o funcionamento de cada um dos personagens dentro do palco. O cenário corresponde à base da nossa mente, a história toda que faz aquilo tudo ter sentido. É como um tabuleiro de um jogo: se eu pegar uma pedrinha do jogo de xadrez e movimentar fora do tabuleiro, ela não faz nenhum sentido. Mas se eu movimentar dentro do tabuleiro junto com as outras, esse conjunto faz sentido. Ainda assim eu fico pensando na pedra, no movimento da pedra, como se aquilo fosse o essencial; mas é sempre um movimento particular dentro de um contexto, dentro de um tabuleiro. Esse tabuleiro, sendo considerado real, é o que produz a sensação de normose.

No budismo, os vários tabuleiros podem ser chamados de bolha de realidade, loka. Se descreve os seis lokas, os seis reinos, que são percepções coletivas. Os seres podem se perceber como se estivessem no reino dos deuses, ou dos semi-deuses, no reino humano, ou dos animais, ou dos seres famintos ou dos infernos. Eles têm essas várias possibilidades de reconhecimento. Os seres que estão nos infernos têm a sensação dos infernos. Por exemplo, eu visitei várias vezes prisões. É uma experiência completamente diferente estarmos ali dentro como convidados ou como residentes por um tempo longo. Mas o que é diferente? As paredes são iguais, estamos no mesmo lugar. O que é diferente é a bolha de realidade. Como que nós vemos a realidade circundante? É completamente diferente.

Então, as transformações coletivas vêm especialmente pela mudança do tabuleiro, do cenário da peça de teatro, pela mudança de como vemos a realidade ao nosso redor. Acho super importante todas as práticas de construção coletiva de realidade numa direção favorável. Um dos métodos que nós temos utilizado se chama conversa apreciativa. Ela vem dentro de várias experiências, em vários diferentes lugares, mas essencialmente essas conversas incluem a consulta: sentamos em roda, nos apresentamos, sorrimos uns para os outros, escutamos uns aos outros, somos capazes de entender uns aos outros. Essa é uma experiência muito importante, porque cada pessoa que fala de repente se sente dentro de uma coletividade, porque as pessoas ouviram, responderam a ela dentro daquele contexto como foi oferecido. A pessoa tem um nascimento coletivo. Na medida em que esse nascimento se estabelece, vem algumas questões que são oferecidas a cada um. Em pequenos grupos, as pessoas vão conversando entre si até aquilo convergir para o grande grupo.

A pergunta é: o que está indo bem e o que pode andar melhorar? São perguntas apreciativas. Não são perguntas como o que está indo mal e como fazemos para liquidar aquilo. Mas são o que está indo bem e o que pode andar melhor. E a partir do sonhos que aparecem para as pessoas, esses sonhos já configuram o universo dentro dos quais as pessoas vão se referir. É como se surgissem outros mundos, outros tabuleiros, outros cenários. E a partir disso a nossa energia se move. Se a nossa energia se move dentro desses cenários a partir de compaixão, amor, alegria, equanimidade, generosidade, moralidade, paz, energia constante, concentração e sabedoria, isso é maravilhoso. Surgem como mundos compassivos, terras puras, onde nós podemos, a partir da nossa experiência, melhorar o que fazemos e beneficiar todos os seres.

Eu agradeço a vocês, considero que estamos construindo esses mundos juntos, desde sempre e especialmente no dia de hoje, com as várias contribuições de todos aqui.

Transcrição de Lucas Ghisleni
Revisão e edição de Stela Santin