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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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Originação dependente no nível grosseiro, sutil e secreto

Originação dependente no nível grosseiro, sutil e secreto

 

Pergunta: faz sentido falar em originação dependente grosseira e sutil?  Por exemplo,  olhamos para os objetos e vemos que eles são constituídos de muitas coisas que não são eles mesmos, como no caso do templo. São infinitas as causas e condições que permitem que o templo surja. É adequado olhar isso como “originação dependente grosseira”? E o fato de eu chamar de templo um conjunto de coisas que não é templo seria originação dependente sutil, uma vez que eu preciso de um templo dentro para ver fora?  Nos exemplos clássicos de Thich Nhât Hanh da folha de papel, que contém a chuva, as nuvens, o sol, e da noção de que nós “intersomos” com toda a biosfera, isso seria originação dependente no nível grosseiro? 

Aspecto grosseiro: originação dependente na perspectiva da transformação das coisas

A pergunta diz respeito aos níveis que a gente pode contemplar a originação dependente. Por exemplo, como Thich Nhat Hanh lembra, a gente poderia pensar assim: nós somos pó de estrelas e as coisas se manifestam de um jeito, depois vão se manifestando de outro jeito. O papel, por exemplo, é muitas diferentes coisas. Ele é o sol, ele é a água, ele é a terra, então as coisas vão se manifestando, se transformando em outras coisas e surgem na nossa frente desse modo. Quando a gente está, por exemplo, focando dentro da perspectiva do Prajnaparamita, isso fica mais ou menos, porque quando a gente fala, por exemplo, da perspectiva do pó de estrelas, quando o Buda se refere a isso no Sutra do Diamante, ele vai dizer “um pó impalpável”. Mas a essa noção de um pó impalpável nós estamos atribuindo uma existência e nós somos observadores, então a gente não está discutindo essa questão do observador e da nossa existência. Isso seria um aspecto grosseiro da visão da originação dependente, em que a gente não entende bem ou não apresenta a perspectiva do Prajnaparamita da vacuidade; a gente apresenta na perspectiva da transformação.

Então, por exemplo, eu tomo a madeira – que é madeira – e eu transformo, eu crio uma mesa. A madeira surge por sua vez da água, da terra, do sol e eu tenho coisas reais, que eu transformo em outras coisas reais, que depois se transformam em outras coisas reais e eu vou indo assim. Não falo da vacuidade daquilo, propriamente. Eu falo de uma contínua transformação. Por exemplo, da perspectiva da biosfera, é como se fosse uma visão ecologista que não incluísse a vacuidade, a visão ecológica de um modo geral não inclui a vacuidade. Geralmente a gente pode associar desse modo: todas as coisas estão relacionadas entre si. Está bem. Eu acho que essa visão é super importante: a interdependência de todas as coisas, a inseparatividade, a causalidade também. Então, são visões onde a noção de causalidade está muito próxima, ou seja, eu faço uma coisa e obtenho outra. Eu tenho uma coisa e exerço uma ação e aquilo resulta numa outra coisa. Mas em momento algum eu preciso contestar nada, por exemplo, não perguntamos: a primeira coisa que tomamos era mesmo aquilo? E a segunda coisa era mesmo? E o que foi que fez uma coisa virar outra coisa? Eu não chego a olhar isso. Eu, de modo geral, não critico isso. Isso está bem. Isso é originação dependente também.

 

Aspecto sutil: originação dependente e vacuidade

Eu acho melhor, mais profundo, de um efeito muito maior, quando nós incluímos a originação dependente junto com o aspecto da vacuidade. Eu acho melhor assim. Isso é muito mais potente. Nós podemos nos mover melhor. Como que a gente entende isso? Em cada nível as coisas são coemergentes com o próprio observador. Elas, na verdade, são inseparáveis. Quando o observador surge de um jeito elas surgem daquele modo. Mas aquilo nunca é aquilo. Aquilo é dentro de um par junto com o observador. Isso não quer dizer que aquilo não tenha substancialidade, quando aquilo se estabelece nesse par; não, aquilo tem substancialidade, aquilo tem operacionalidade, tem causalidade, só não é absolutamente aquilo, de modo absoluto, unilateral, aquilo não é assim.

Por exemplo, uma ovelha, que nesse caso é o bicho que nós vemos. A gente não chega a  perguntar a ela “você seria o quê?” Diferentes seres podem olhar a ovelha do seu jeito. Nós temos um olhar para ela. Aqui nós estamos observando a ovelha inseparável da lã que ela tem. É como, por exemplo, o gaúcho, que tem olho de gaúcho e ele olha para um boi e sabe quanto pesa e quanto vai dar de osso e quando vai dar de gordura. Eu lembro de andar nos lugares e ouvir as pessoas falando que não precisavam nem pesar o bicho, só de olhar, elas já sabiam quanto que tem. Então, o gaúcho não vê a vaca ou o boi vivos; ele já vê os pedaços todos. Ele não pensa sobre aquilo. Ele tem um olhar próprio. O bicho já fica meio assim. Esse olhar é um olhar que parece natural. E tem uma causalidade: mata o bicho e pesa para ver. Não é que dá certo? Se não der certo, ele bate na balança e faz aquilo dar certo.

A gente começa com o carneiro ou com a ovelha. Daqui a pouco nós estamos vendo a lã. Então, a gente vai tosquiar o bicho. Nós temos a lã da ovelha e nós temos um olhar para ela, nós temos um olho. Esse olho inicialmente associa a lã à própria ovelha. Mais adiante, quando a gente olha para a mesma lã, nós associamos a lã a um fio. Então, a gente olha para a lã e a gente vê a ovelha, a gente olha para a lã e a gente vê um fio. O fio é uma construção sutil que nós produzimos com a mente luminosa. Mesmo que a gente fie essa lã, não tem nada no fio que não seja a lã original. Nenhuma alteração. Mas o nosso olhar do aspecto sutil produziu alguma coisa. Então, temos a mente da originação dependente que é capaz de olhar a lã, que tem a conexão com a ovelha, e agora a gente desloca isso e começamos a ver a lã associada a um fio. Então, como agora ela está associada a um fio tem uma série de características que a gente pode examinar. Tem aspectos que estragam a lã, por exemplo, a gordura. Então, a gente vai precisar tirar a gordura da lã, desengordurar a lã, a gente retira essa gordura e ela é preciosa também. Ela é muito utilizada.  A gente não pensa mais na ovelha; estamos pensando na substância da própria gordura da lã, que é muito útil para várias coisas.

Começamos a olhar a gordura. Vamos supor que aquela gordura era um excedente, não sabíamos o que fazer com ela; de repente, a nossa mente cria uma outra coisa. Aquilo fica precioso. Mas qual foi a diferença? Nenhuma diferença. A não ser uma criação luminosa. A gente cria aquela designação. Aquilo tem uma causalidade. Eu passo a usar. Aquilo ainda é parte da lã original. A substância não se altera, o olhar se altera. A partir dessa alteração do olhar e da decorrência disso em termos de causalidade, de interligação, a gente vê perfeitamente que começa a surgir uma outra laçada da rede de Maya.

A gente tem uma coisa, aquela coisa agora a gente enrola e dá outra laçada, então agora eu tenho dois produtos: eu tenho a lã e tenho a lanolina. Eu tenho duas coisas agora. Eu posso começar a perguntar “como é que eu uso isso?” A lanolina eu uso em cosméticos, super usado. É usado para todo o creme para cabelo. Então, tem mais uma laçada no processo de Maya. A gente denomina uma coisa e aquilo surge.

O processo econômico também funciona assim.  Tem mais uma laçada na rede das atividades econômicas. Aquilo passa a ter um significado. Por outro lado temos o fio: a gente torce aquela lã, estica e torce, estica e torce, vai enrolando, vai enrolando, esticando, torcendo, enrolando e fiando. Aí nós temos o fio. E quando estamos olhando para o fio a gente não está mais vendo propriamente o floco da lã, nós estamos olhando agora o fio, nós estamos olhando outra coisa, ainda que a substância seja a mesma, exatamente a mesma. Nós ainda estamos com um pedaço da ovelha. A gente não está mais olhando nem o floco; agora nós estamos olhando o fio. Quando a gente olha o fio, a gente vê o tear e nós já estamos nos preparando para usar aquilo que é um outro elemento que a gente constrói. É um aspecto luminoso. Então, a nossa mente contrói uma outra coisa agora.

Ou a gente está vendo o tapete. E quando a gente olha para o tapete, são muitos fios colocados. A gente não consegue nem ver porque é uma superfície lisa. E a gente não se relaciona mais com o floco, nem com o fio; a gente se relaciona com o tapete. Quando a gente olha para o tapete a substância é substituída pela aparência dos desenhos. Daí nós construímos outra coisa com a mente. A gente pensa se é fofo para sentar, como é que é, se isola se não isola, é outra coisa que a gente olha. Mas a gente tem a mesma substância original.

 

É, não é, é

Então, camada por camada, nós criamos outras visões. A visão muda. O processo é a origem dependente. Quando a visão muda, os objetos surgem junto com os observadores. Esse é o aspecto sutil da originação dependente. Isso nos permite dizer que o fio é, mas ele não é, mas enfim ele é. Cada coisa dessas que a gente olhou a gente diz:

é, não é, é;

é, não é, é.

A vacuidade se aplica nesse aspecto. E o elemento ativador das aparências é a luminosidade atuando na forma da origem dependente. Porque a gente toma algo e na dependência desse algo que parece que é uma coisa firme a gente produz uma outra que é uma transformação daquilo, uma ressignificação. É como um ninho de pássaros. Eles pegam muitos fios que não são ninho e aquilo vira um ninho. Tu pões o dedo por dentro e tem uma cavidade grande e uma boca estreitinha. Aquilo é quentinho, todos os filhotes cabem ali dentro e tem uma pontinha para eles se comunicarem. Super interessante. No ninho, o aspecto mais interessante é o espaço interno. O espaço interno é o ninho e a parte de fora o pássaro foi capaz de ressignificar, dar significado para diferentes raminhos, diferentes fibrazinhas. Ele constrói aquilo.

É parecido com o buraco do caranguejo na praia também. Aquilo é a proteção dele. Ele precisa do buraco, ele não precisa da areia. Está certo que para ter o buraco precisa ter a areia em volta.  Mas enfim, o que ele tem é aquilo. Quando a gente se aproxima, ele defende o buraco. É uma coisa muito interessante aquilo, ele dá um significado para um buraco. E o buraco seria a ausência de alguma coisa. Interessante esse ponto.

Mas então nós temos essa característica. Os seres todos do Samsara tem essa característica, essa capacidade. As plantas também tem essa capacidade de tomar alguma coisa e fazer surgir outra. As células intestinais também, elas pegam alguma coisa e transformam em outra. Então, isso é muito notável,  é muito extraordinário. Isso define a mente do Buda: a capacidade de construir mundos, realidades. Esse é o aspecto sutil.

 

Aspecto Secreto

Há também o aspecto secreto que está associado à originação dependente. O aspecto secreto da originação dependente é a mente livre que se manifesta de um jeito ou de outro. Então, por exemplo, quando a gente diz “a mente da originação dependente faz surgir a lã enquanto lã, faz surgir o fio, faz surgir o tecido no tear” isso quer dizer que ela nomeia isso, ela faz isso existir. Mas, por exemplo, ela não está presa a nenhuma das construções que ela realiza, ela segue livre para fazer construções de outro tipo. Esse aspecto original de liberdade, mas de uma vida associada também, é o aspecto primordial. O aspecto primordial está junto, inseparável do aspecto sutil que é a atividade de produzir aquilo e que está ligada ao aspecto grosseiro, que é quando nós não entendemos a vacuidade, nós olhamos uma coisa surgindo como outra, como ferro surge como prego, como parafuso, como chapa, e como as chapas, parafusos, pregos e rebites surgem como automóveis e aquilo vai indo. Então, isso é o aspecto grosseiro.

Tem o aspecto sutil que é a atividade e tem a liberdade natural desse aspecto sutil que é o aspecto secreto, tem uma vida ali dentro. Qualquer coisa que a gente construa pode se transformar mais adiante, podemos olhar para aquilo de um outro jeito. O aspecto secreto é uma natural liberdade.

O aspecto secreto, quando a gente olha as cinco sabedorias, corresponde à sabedoria da cor branca, vairochana, o aspecto da mente ilimitada, Darmata. Todas as aparências são Darmata. Elas são uma expressão da liberdade  natural de produzir aparências. Mas ao mesmo tempo as aparências produzidas não são algo no sentido de algo em si mesmo separado de nós. Isso é considerado espaço.

 

Transcrição: Carolina Rojas

Revisão e edição: Stela Santin

 

Ensinamento oferecido por Lama Samten dia 22/11/2017 no templo do CEBB Caminho do Meio em Viamão.

Veja o ensinamento completo. A resposta acima começa em 13:40.