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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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As cinco sabedorias

As cinco sabedorias

Essas cinco qualidades são as sabedorias dos cinco Diani Budas, que são simbolizadas pelas cinco cores das bandeiras tibetanas. Precisamos nos lembrar disto. Essa é a nossa essência.

Sabedoria do Espelho

Precisamos ter a sabedoria da cor azul, que é a sabedoria de olhar para o outro e acolhê-lo do jeito que ele vem. Isso é também chamado de sabedoria do espelho. E o que significa acolher o outro do jeito que ele vem? Significa, em primeiro lugar, entender como o outro está vivendo, qual sua experiência de mundo, como ele está experimentando aquilo. Para entender como o outro vive a sua experiência de mundo, temos que entender que a mente dele se espelha no mundo; que o mundo é um espelho que reflete a mente dele. Se ele tem raivas, o mundo vai aparecer como a fonte desta raiva que brota nele.

Nós vamos então trabalhar esse aspecto muito sutil da compreensão da vacuidade, que é também chamado de co-emergência entre o mundo externo e o mundo interno. Nós não conseguimos entender o outro se nós olhamos o outro a partir dos nossos próprios referenciais. Nós precisamos entender o outro a partir dos referenciais dele.

Quando nós entendemos o outro a partir do referencial dele, isso significa que nós vemos o mundo do mesmo modo que ele vê, e por isso nós conseguimos falar dentro do mundo dele e ser entendidos. Se nós guardarmos a nossa experiência de mundo e quisermos impor a nossa experiência de mundo sobre a experiência de mundo do outro, não há linguagem, não há como acolhê-lo. Isso, na verdade, é rejeitá-lo, é não ouvi-lo.

Os Budas e Bodisatvas vão para os mundos, ouvem os seres e atuam dentro da linguagem dos seres, retirando-os da confusão. Se nós não tivermos essa capacidade, nós vamos agir conforme o samsara usual, ou seja, nós olhamos paras pessoas, gostamos ou não gostamos, entendemos o mundo ao nosso modo, impomos a nossa visão sobre o outro e dizemos: “você não está vendo direito, a realidade é assim!” Se nós ficarmos estruturados dentro do nosso mundo, nós não conseguiremos ajudar o outro.

Nós precisamos dessa habilidade que é a sabedoria do espelho, Buda Akshobia. Nós vamos treinar isso.

Sabedoria da Igualdade

Depois, nós temos a sabedoria do Buda Ratnasambava, representada pela cor amarela. Essa é uma habilidade que não pode faltar em nós: se há alguém que está em dificuldades, aquele alguém nos interessa. Se não somos tocados pela sabedoria da igualdade, simplesmente dizemos: “bem, isso é um problema dele, aliás, isso é o carma dele” e nós vamos escapando. Ou então podemos não ter propriamente um interesse maior pelos outros e dizemos: “olha, a vastidão dos carmas é infinito, o que posso fazer? Eu, quando muito, lido com o meu próprio carma”. Essa seria uma posição Hinayana, uma posição do caminho do ouvinte, do caminho estreito, onde não há compaixão.

No caminho Mahayana, nós temos os cinco Diani Budas. O segundo deles é a sabedoria da igualdade. Então, mais do que apenas nos interessarmos pelos outros, é necessário que comecemos a gerir a nossa própria energia a partir disso. Por exemplo: se nós ajudamos os outros, isso produz em nós um interesse e uma sustentação de energia.

De um modo geral, a nossa energia se sustenta de um outro modo, ela se sustenta pelo gostar ou não gostar das coisas com as quais fazemos contato. Mas agora não mais. Não importa se estamos vendo alguém que gostamos ou não gostamos, isso não vem ao caso. Vemos alguém em dificuldade e vamos ajudar. E aí nós precisaríamos contemplar: essa energia brota ou não? Se essa energia brotar, isso é a bênção do buda Ratnasambava, esse é o lung do buda Ratnasambava. Isso é a sabedoria da igualdade operando de modo real.

Essa explicação é uma abordagem sutrayana. O ensinamento na abordagem tantrayana seria o ensinamento no qual vocês efetivamente vivem isso. Algumas vezes se faz uso de imagens fortes para produzir esse interesse, por exemplo: imagine sua mãe em sofrimento. Ou então imagine que aquele ser foi sua mãe em uma vida passada. Agora esse ser cruzou por você, o que é um momento muito raro, e está em grande dificuldade, por isso se aproximou de você. Ele está pedindo ajuda. Aí, você não reconhece que esse ser é a sua mãe, vira as costas e segue. Começamos a sentir isso! Então, essa mundança entre o entender e o sentir é a diferença entre a abordagem sutrayana e tantrayana. Precisamos tornar o ensinamento vivo em nós.

Estamos vendo a Sabedoria do Espelho, Buda Akshobia, e a Sabedoria da Igualdade, Buda Ratnasambava. Os professores, por exemplo, manifestam isso. Eles estão cuidando dos seus alunos e se alegram com o progresso deles. Se não se alegrarem, aí não são professores, não tem o lung de professor, ou seja, a energia natural, o brilho do olho. Isso vem da alegria de, ao ensinar, perceber que o outro aprende, ainda que com dificuldade. E quando o outro aprende, é muito bom, muito bom para o outro e, especialmente, para o professor. Essa é a Sabedoria da Igualdade.

Sabedoria Discriminativa

Em seguida, temos a sabedoria discriminativa, cuja cor é vermelha. O facilitador de cultura de paz precisa ter isso também, porque essa é a essência dos ensinamentos. A sabedoria de entender o outro, a sabedoria de acolhê-lo, de fazer brotar a energia que vai trazer benefício a ele – isso é muito importante! Mas o benefício, de fato, como é que acontece? O benefício acontece através da sabedoria discriminativa do Buda Amitaba.

Para simplificar, a sabedoria discriminativa são  Quatro Nobres Verdades e no Nobre Caminho de Oito passos. Aspiramos que as crianças entendam, que todos entendam as suas vidas a partir do referencial das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho de Oito Passos. Se nós nos afastarmos disso, lá estará Maharaja nos esperando. Ao menor traço de distanciamento disso, Maharaja bate em cima, com certeza! Isso não é uma perseguição, mas seria assim: se nós tentamos o impossível, não obtemos resultado; quando nós não obtemos resultado, culpamos alguém; esse alguém seria Maharaja.

Maharaja é uma figura que não existe, mas a ação dele existe. Por quê? Porque nós não obtemos resultados, onde não é possível obtê-los.

A sabedoria discriminativa vai discriminar o que é real do que não é real e, dentro da sabedoria discriminativa, nós estudamos com cuidado todos os aspectos do quadro da Roda da Vida. A partir da Sabedoria Discriminativa, geramos a motivação correta, que é a motivação de nos afastarmos do engano, porque ele não produz resultado algum. Dessa perspectiva mais ampla, obtemos resultados positivos, que, no início, podem ser descritos como felicidade, a nossa felicidade. Está bem se tomarmos a nossa felicidade como referencial, mas mais a diante vamos achar que isso é pouco, vamos querer ir além da própria sensação de felicidade.

A sabedoria discriminativa nos ajuda a definir a motivação adequada em nossas vidas, em nossas ações. Ela irá determinar se a pessoa vai conseguir ter sucesso ou não. A sabedoria discriminativa é a própria essência do ensinamento budista.

Sabedoria da Causalidade

A seguir, nós temos a cor verde, que simboliza a ação da sabedoria da causalidade.

A causalidade é assim: nós fazemos um tipo de ação e aquilo produz resultados. Então, muito cuidado! Precisamos entender como se dão os resultados, em níveis mais profundos e mais superficiais – em todos os níveis! Precisamos entender como os resultados são manifestados e aprender a produzir resultados positivos e evitar resultados negativos.

Em uma condição extrema, a sabedoria da causalidade potencializa a ação irada. Assim, podemos, por exemplo, como pais e mães, interromper ou determinar o que os filhos podem ou não fazer. Seria falta de compaixão deixarmos os pequenos fazerem o que eles bem entendessem. Eles podem perder a vida, vão se ferir, vão ter problemas rapidamente. Nós precisamos estar o tempo todo próximos para impedir que eles, na falta da sabedoria discriminativa, criem grandes complicações para eles mesmos. Então, é necessário que estejamos dispostos a usar esta sabedoria e interromper o que precisa ser interrompido.

Sabedoria de Darmata

Finalmente, temos a cor branca, a sabedoria de Darmata, a compreensão do espaço básico. Isso é realmente maravilhoso. Por exemplo, podemos começar pensando que, no passado, nós nos descrevíamos de um jeito ou de outro. Nós já moramos em diferentes lugares, já fizemos diferentes coisas. Agora dizemos: “eu não sou aquilo! Aliás, de fato, eu nunca fui aquilo, aquilo foi alguma coisa que se manifestou”. “No passado eu manifestei fraudes sucessivas. Não era eu! Eu me apresentei de um jeito, mas eu não era aquilo. E agora eu estou me manifestando de um outro jeito. Seria esse jeito também uma fraude, ou não?”

Então, nós olhamos deste modo. Quando entendemos que aquilo que está se manifestando hoje também é uma fraude, entendemos Darmata. Compreendemos que todos os jeitos particulares que manifestarmos são construções; porém, existe uma natureza livre de onde as construções brotam. Nós nunca seremos nenhuma das construções, mesmo que juremos de pés e mãos juntas: “eu sou isso, eu faço isso, pode confiar!”

Todos esses aspectos são transitórios, construídos. A nossa natureza é uma natureza livre, que ri dos nossos votos samsáricos. Quando olha paras nossas construções samsáricas, nossa natureza sabe que elas não perduram. Se ainda assim insistimos – “não, eu sou sério, é isso mesmo” – aí, a natureza de Darmata despacha Maharaja e …. bum!…derruba aquele ser que insiste em ficar fixado em alguma coisa. Então, no mínimo vocês pensem: nós envelhecemos e morremos. Aí aquilo que nós éramos se dissolve. Então não adianta nós nos fixarmos teimosamente. Nós não somos isso.

A sabedoria de Darmata é a sabedoria de ver o que nós verdadeiramente somos. É o olhar que atravessa a aparência e vê a natureza livre que cria as nossas manifestações. Nós não atingiríamos a liberação sem a sabedoria de Darmata. Não é possível, porque não há nenhuma identidade que possa se construir livre. A liberdade não é uma construção, não é uma identidade, ela é nossa condição natural. As nossas prisões, as nossas manifestações comuns são manifestações dessa liberdade. Essa liberdade permite que a gente se construa de muitos modos. A sabedoria de Darmata é isso. Por exemplo, uma professora, olhando um pestinha dentro de sala de aula, através da sabedoria de Darmata, pode dizer: “oh, a natureza dele é a natureza de Buda. A natureza de Buda é a natureza livre. Todos os seres tem a natureza livre”.

A etapa mais profunda do acolhimento é nós entendermos que o outro tem a natureza de Buda. O olho mais benigno, mais amoroso que podemos ter em relação a qualquer pessoa é não acreditar na cara que a pessoa está manifestando. É dizer: “você é livre, você tem uma natureza livre, você pode fazer outras coisas”. Por exemplo, uma professora, olhando um pestinha dentro de sala de aula, através da sabedoria de Darmata, pode dizer: “oh, a natureza dele é a natureza de Buda. A natureza de Buda é a natureza livre. Todos os seres tem a natureza livre”.

Meios hábeis no mundo

Eu falei dos cinco Diani Budas, a origem das cinco sabedorias, que é essencialmente aquilo que vamos tomar como referencial para nossas ações. Precisamos disso, de saída. Essas cinco sabedorias geram imediatamente a possibilidade de nós utilizarmos os meios hábeis, que são as Quatro Qualidades Incomensuráveis, compaixão, amor, alegria, equanimidade, e as Seis Perfeições, generosidade, moralidade, paz, energia constante, concentração e sabedoria.

Vamos utilizar esses dez ítens, somados às cinco sabedorias, tomados em quatro diferentes níveis: corpo, fala/energia, mente e paisagem. Por exemplo, nós precisamos praticar essas ações e essas visões com o nosso próprio corpo. Ao nos movermos, vamos precisar utilizar esses referenciais. Mas não só com o corpo, nós precisamos agir a partir desses referenciais com nossa energia e nossa fala, ou seja, nossas emoções e nossos impulsos. E também a nossa mente precisa estar comandada por isso, e a nossa compreensão, a nossa visão de mundo, a visão das circunstâncias onde nós estamos, todos estes aspectos devem estar harmonizados com essa visão. Se isso não ocorrer, podemos pensar: “os ensinamentos budistas não servem para o mundo de hoje, não servem na Receita Federal onde eu trabalho, não servem na universidade onde eu estudo. Eles são bons aqui, mas não em algum outro lugar”.

É necessário que o lugar no qual vivamos seja um lugar onde possamos sentir que esses ensinamentos são úteis. Nossa visão de mundo, em todas as circunstâncias, tem que estar harmonizada a esse tipo de ação.