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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

Arriba!

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Gestão por mandalas | Lama Padma Samten

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Transcrição de uma conversa da sanga do CEBB Florianópolis com Lama Padma Samten em junho de 2013

Tivemos uma conversa anterior e surgiu a necessidade de uma reunião para ver como internamente surgem os funcionamentos gerais. Aqui em Florianópolis não tenho propriamente uma inserção no cotidiano do CEBB. Vocês têm mais conhecimento do que eu e já sabem o que é necessário para o CEBB Floripa. Então, quero abordar a questão das mandalas de forma mais ampla, no sentido de entender como funcionam.

A operação das mandalas é um processo aberto em que é possível receber ajuda das várias pessoas na medida do interesse, sem aprisionar ninguém dentro de abordagens específicas. Não é um processo de compromisso, mas um processo por dentro do qual a gente consegue fluir, em que é possível acolher diferentes graus de conexão das pessoas. Não é preciso que os envolvidos tenham um grau fixo de conexão; eles podem exercer um grau de conexão variável.

Trata-se de um processo de organização do trabalho não autoritário. Pois é possível haver uma oscilação entre dois extremos: de um lado, um processo totalmente livre que se torna caótico e, de outro, um processo organizado que se torna autoritário. A questão é: como preservar a alegria, a felicidade, a iniciativa das pessoas, manter a abertura de pensamento sobre as coisas sem que seja caótico nem tenha um jugo autoritário?

Esse é um ponto delicado. Trato desse tema de uma forma mais extensa no livro Mandala do Lótus (2006). Como chegar numa comunidade totalmente desorganizada e conseguir se organizar, através de uma auto organização, sem utilizar o processo repressivo nem estabelecer o processo caótico? É o tema geral da questão das mandalas. Vou explicar aplicando à situação prática do CEBB.

No CEBB Canelinha, por exemplo, é necessário uma mandala que pense a utilização da área, a disposição dos terrenos. Por outro lado, sempre chegam pessoas novas, trazendo ideias novas, e temas que já foram abordados muitas vezes têm de ser abordados de novo. Começa a surgir uma sensação de perda de tempo. Quando estamos prestes a tomar uma decisão, chega alguém e diz: “Será que não tinha de ser assim? Será que não tinha de ser assado?”. É bem difícil.

Aconteceu uma coisa semelhante na comunidade em Rodeio Bonito. Os assuntos eram tratados em roda, como estamos fazendo aqui. Mesmo que tratássemos dos assuntos num circuito em que todas as pessoas tinham interesse, era comum que houvesse pessoas passando, algumas davam ideias e depois iam embora. Por exemplo, nós iniciávamos um movimento de cultivar uma roça muito maior do que precisávamos a princípio, porque as pessoas que chegavam tinham tais ideias. Acabávamos semeando muito mais do que precisávamos. Então, quando começavam as tarefas mais trabalhosas, que eram capinar, roçar, as pessoas já tinham ido embora. No período de colher, então, que é um trabalho pesado — tem de estocar, organizar — já havia pouca gente, as pessoas não estavam mais lá.

A inteligência de um empreendimento tem que ter um nível de organização, se não a gente se perde. Por outro lado, não se pode barrar as pessoas e dizer que elas não vão colaborar. Como fazer isso funcionar?

Numa ocasião, em Rodeio Bonito, eu estava colhendo mel, quando uma pessoa abriu a caixa de abelhas e depois foi embora sem fechar a tampa da caixa, deixando as abelhas escaparem. Havia pessoas passeando por lá, sem avisar, e a situação ficou perigosa. Assim, tive de parar o que estava fazendo e sair correndo para ajudar. Então, uma pessoa está fazendo pacientemente uma tarefa e alguém acha que pode fazer qualquer coisa espontaneamente. É uma situação problemática, em que, ao mesmo tempo em que desejamos acolher a boa vontade das pessoas, temos de ajudar a organizar as coisas. Não é uma coisa muito fácil.

As mandalas surgem para organizar este movimento coletivo. Lá no Rodeio Bonito, por exemplo, nós introduzimos o coordenador, um focalizador. Ninguém faz nada naquela área sem falar antes com o focalizador. Não se trata de ter uma autoridade repressora, mas, quando alguém vai entrar numa área, é bom que pergunte o que já andava sendo feito ali, de tal maneira que o movimento de todos seja harmônico. Surge este conceito de mandalas e de um focalizador; se não tiver um focalizador, provavelmente não vai funcionar.

Como gerir e fazer funcionar uma mandala? Por que às vezes a mandala está andando e depois vai perdendo a força? Como é manter tudo fluindo? Quero explicar para vocês como é que se faz: é necessário o nosso lung e também o lung das pessoas. O lung é um processo sutil. Por exemplo, é possível entender que uma coisa deve e precisa ser feita, mas não haver o lung correspondente. Posso explicar para uma pessoa, ela entender, mas não ter o lung de fazer e também é possível ter o lung de fazer de outro jeito e não como foi combinado.

Também define o nível de audição que a gente tem das coisas. De acordo com nossa disposição cármica de lung, a gente ouve as coisas segundo um viés. Interpreta aquilo de um certo modo e faz de maneira que não considera os detalhes. Os trabalhos práticos são uma forma muito hábil de trabalhar com nossa mente. As mandalas não são simplesmente o lugar onde vamos fazer as coisas. São o lugar onde treinamos nossa mente, nossa energia, nosso foco, nossas relações.

Quando as relações não andam bem, não existe foco, é porque estamos sob o domínio de estruturas de carma que estão aflorando. Quando surge a desarmonia, não deveríamos eliminar, é uma coisa que deve ser aproveitada. Ou seja, o surgimento da desarmonia indica certas estruturas que precisamos reconhecer e entender e trabalhar. Isso significa tomar a mente como caminho, ou a realidade como nosso caminho. É super importante a gente poder aproveitar as coisas boas e ruins quando surgem.

A manutenção da área do Caminho do Meio é um bom exemplo de uma mandala: as pessoas que estão trabalhando ali dentro têm um dom específico para executar certas coisas. A mandala deveria funcionar assim. Cria-se um grupo com pessoas que gostam de obra, de planejamento, de plantar árvore, de administrar as contas de água e de luz, cuidar da iluminação da área, abrir valo, tapar buraco etc. Agora, por exemplo, vimos que havia uma discrepância da água que estava sendo vendida para nós e a que estava sendo vendida para o uso interno das pessoas que vivem lá. Foi detectado que havia problemas com os medidores e com os filtros. Então, foi necessário fazer a limpeza dos filtros um por um para corrigir isto.

Assim, as pessoas prestam contas, falam com o contador. As taxas de condomínio da área vão para essa associação, que tem um fundo de caixa que eles vão gerindo. Quando há uma sobra de caixa, contribuem com a escola ou outras coisas.

Assim, a manutenção de área é uma tarefa que não corresponde à diretoria do CEBB. Eu não preciso mais me envolver com isso. Houve um tempo em que me envolvia diretamente, mas hoje eu passo ao largo, bem feliz de não precisar me envolver com essas coisas. Com um grupo desses, nós conseguimos ter uma política de longo prazo, segundo uma certa maturidade. Até mesmo porque as coordenações são flutuantes; assim, é possível haver uma continuidade.

Agora estou aspirando fazer uma mandala associada à saúde no Caminho do Meio, assim como aqui em Canelinha. Em dezembro de 2011, fizemos um evento muito bom na área de saúde, foi muito concorrido, muitas pessoas diferentes participaram. Aspirávamos que, na sequência, se constituísse um local onde diferentes terapeutas pudessem trabalhar e ajudar as pessoas da região e as nossas também, mas não funcionou. Não demos sequência. Era preciso gerar os recursos, construir prédios, mas faltou focalizador. Estamos retomando esta ideia.

Então como é que eu fiz? Vou tomar o exemplo prático da mandala da saúde para a gente poder entender como as coisas são feitas. Eu mesmo comecei a olhar para isto no papel de focalizador, que é dar a partida. Olhei: faz sentido a gente ter alguma coisa ligada à saúde? Por uma série de razões faz sentido e cada CEBB deveria ter alguma coisa desse tipo.

O primeiro foco, para mim, é observar que, quando estou andando por diferentes partes do país, encontro pessoas com doenças que vêm me dizer coisas do tipo: “Lama, estou com um problema de saúde, estou com um câncer, estou com um tumor, com uma fragilidade não sei bem do quê… como é que eu resolvo isso?” A pessoa imagina corretamente que existem fatores sutis que estão afetando a sua saúde e entende que precisa ser socorrida.

Vejo que a pessoa não está com um único problema de saúde, mas com uma série de problemas de saúde que estão eclodindo na forma de um sintoma principal. Ela está comendo mal, se exercitando mal, está com uma vida tensa, está brigando com todo mundo, já tem deficiências de algumas coisas, tem uma série de problemas. Eventualmente, essa pessoa vai fazer um tratamento agressivo para aquele sintoma, sem lidar com o quadro todo, e não vai curar aquilo que é o pano de fundo do problema. Então me brota compaixão. Fico com a aspiração de que Canelinha se torne um local para receber essa pessoa uma semana, um mês, para que possa se desintoxicar, fazer exercício, acalmar a mente.

É uma porta de entrada. A pessoa foi atropelada pelo samsara e o sintoma principal eclodiu no campo da saúde; não foi propriamente no campo das relações nem no campo econômico. Se a gente acolhe, as pessoas se beneficiam: vão melhorando, se pacificam, se tornam mais conscientes e vão mudando. Essas pessoas terminam por encontrar o darma.

Tenho visto pessoas com perturbações psíquicas variadas, depressivas, com síndrome de pânico, crises psicóticas. Há coisas aparentemente leves, moderadas, mas que são desse mesmo nível: pessoas que brigam com todo mundo no local do trabalho, não se dão bem com os filhos, se relacionam mal em todos os níveis, começam a acusar os outros, falam mal de todos: “meu marido é horrível”, “minha mulher é horrível”, “meus vizinhos são horríveis”. Ela poderia dizer: “estou me relacionando mal, estou passando por uma fase ruim”. Mas ela não vê assim, ela acusa os outros: “meu chefe é horrível, não consigo trabalhar direito”, “as pessoas olham para mim sempre criticando”.

A pessoa está presa numa armadilha e não sabe como fazer para sair. Ela tem uma sensação de que aquilo está acontecendo de fato, de que existe todo um entorno negativo ao redor. É desse modo que ela avalia o mundo que a cerca. Podemos dizer: “observe como você está olhando para os outros”, mas não adianta. A pessoa responde: “não, ele está realmente fazendo isso pra mim”.

A gente precisa ajudar essas pessoas. Eu acho que os CEBBs rurais têm essa vocação natural. As pessoas buscam os CEBBs rurais como cachorros feridos procurando um lugar para ficar. Querem ser protegidas, descansar, se alimentar, se aliviar. Os CEBBs rurais são locais em que essas pessoas podem ser acolhidas.

Há muitos outros exemplos de pessoas que têm perturbações ou que estão saindo de drogadição e que aspiram chegar nestes lugares e receber acolhimento. Nós precisamos acolher as pessoas. Não deveríamos pensar: esta pessoa está doente. Deveríamos pensar: “esta pessoa foi atropelada pelo samsara”. O samsara é um grande fator de adoecimento. Por isso, esta área de saúde é super importante.

Então, eu raciocinei isso e pensei que é uma boa coisa poder acolher e ajudar essas pessoas. Agora que a escola está andando melhor, podemos focar nisto também.

E como se começa? Não é com um projeto da clínica. Começa pelo pensamento do acolhimento. Pois se a clínica surgir, vem pelo funcionamento do acolhimento e não pela ideia da clínica. Assim, o processo de acolhimento inicia com um tutor do darma para falar com a pessoa, pois ela não pode chegar de uma forma caótica. Ao chegar, precisa encontrar uma pessoa que tenha uma visão do darma; precisa encontrar um médico que faça contato com o seu próprio médico e com sua família; vai precisar de um alopata que faça a leitura daquilo através da visão tradicional da medicina.

O tratamento começa com as práticas de remoção de obstáculos e melhoria das relações. Os tutores já sabem qual é esse processo: vamos trabalhar essencialmente com os quadros dos 240 itens e dos 200 itens.

O foco inicial é aliviar a situação médica da pessoa. Nós vamos precisar de alguém que faça o diagnóstico da íris, de um naturopata que possa prescrever uma alimentação específica, de um educador físico. A pessoa que chega vai precisar de uma atividade física para recompor músculo, articulação, precisa de exercício aeróbico. Na sequência, a partir da naturopatia ou das várias abordagens específicas com relação a alimento, de acordo com a disposição da própria pessoa, ela poderá seguir por várias opções: alimentação viva, macrobiótica, etc. Precisamos dessas várias opções.

O papel do tutor é olhar para as pessoas, ver os obstáculos e ver os méritos. Ele vai ajudar a treinar os méritos, fazê-los se expandirem e reduzir os obstáculos. No final de um período de 2 semanas, quando a pessoa está num ambiente mais tranquilo, ouvindo os ensinamentos, participando de um grupo de estudos, está caminhando, fazendo exercício, ela deve ter melhorado bastante. Então os sintomas – aquilo que está de fundo mais agudo – vão aparecer. São esses os sintomas que vamos tratar, pois removemos os fatores de adoecimento mais intenso.

Então, pensando nessa aspiração, como vou fazer isso acontecer? Qual é o raciocínio? Chamei a coordenação do CEBB local, fizemos uma reunião e perguntei a eles: “O que vocês acham? Eu acho que é uma boa coisa. Como é que a gente faz isto acontecer?”

Por que vou perguntar para eles? Porque eu tenho uma visão. Não vou chegar nas pessoas e dizer: “Olha, decidi fazer uma clínica, vocês limpem isso, pintem aquilo, vamos botar uma placa e vamos divulgar”. Não vou fazer isso porque não vai funcionar. Exponho as ideias na reunião e eles dizem o que acham, dão opiniões, propõem mudanças. Quando as pessoas dão opiniões, quando propõem mudanças, já estão dentro da mandala. Trata-se de um processo sutil: as pessoas começam a pensar sobre aquilo e a raciocinar. É diferente de dizer: “preciso de soldados para executar a minha ideia”. Dessa forma não é uma mandala, pois há uma estrutura repressiva.

Na mandala, eu escolho as pessoas com quem vou conversar e convido para raciocinar juntos. É um processo sutil. Se elas não manifestarem o lung, a mandala não os inclui, porque a mandala pressupõe o lung.

Então, temos um núcleo de pessoas que está entendendo e achando que vale a pena. A etapa seguinte é a escolha de um coordenador, um focalizador dessa mandala. Eu não sou focalizador da mandala do aspecto de saúde; sou focalizador dos vários CEBBs, sou aquele que estimula o surgimento daquilo. Por exemplo, estimulei e dei a partida na escola, mas agora que a mandala da escola está robusta, estou saindo, estou me liberando para fazer outras coisas.

Outros também poderiam fazer o mesmo com relação à mandala de saúde, eu teria apoiado, mas não aconteceu e não demos sequência. Então estou ajudando. Estou envergonhado, pois fizemos um grande evento e não demos sequência. Estamos preparando um evento grande para novembro.

Como é que vamos fazer o evento? Estou ajudando a pensar sobre isto. Esse não é um evento propriamente, é algo que nos ajude a estabelecer este nível.

Precisaremos convidar pessoas que são boas nas várias áreas em que vamos atuar. Essas pessoas vão nos ajudar a raciocinar, mesmo que não sigam depois. A ideia do evento é reunir as pessoas e gerar informação. Precisamos de informação para manter aquilo funcionando bem. Então já temos um eixo para a criação do evento que está associado ao próprio funcionamento posterior do centro.

Com relação à mandala do aspecto de saúde, agora estamos nesta etapa: faremos uma reunião grande com todas as pessoas que poderão ajudar, com as várias pessoas de quem lembramos. Vamos perguntar a elas: vocês acham que isto está bem? Será que esta casa vai funcionar? Vou dando “palpites furados” que posso facilmente abandonar. Sem apego. Acho que precisamos de um tipo de academia, esteira, pilates, atividade física. Precisamos de um psiquiatra, de um alopata, tutores, meditações, os vários processos para integrar tudo…

O raciocínio é esse: vamos falar com as pessoas. Se o olho brilhar e surgir a motivação de atuar nisso, se tiverem interesse de participar, disposição, então a mandala está formada. A mandala funciona pelo sonho coletivo, pelo nascimento de cada um dentro daquela operação, pela continuidade daquele diálogo.

Naturalmente já prevemos dentro desta mandala a necessidade de gestão econômica; tem de fazer um fluxograma, tem que pagar as contas e fazer aquilo funcionar. Como é que vai haver o fluxo econômico para sustentar as pessoas que estão morando ali? Vai haver porque estamos nos abrindo e oferecendo benefício para as pessoas: são méritos.

A mandala se sustenta por um sonho, pelo benefício que traz, por um fluxo econômico, pelo processo administrativo e um lung que vai tocar cada um, mas sem uma estrutura repressiva. Então uma mandala é isso.

Surge uma questão: parece que talvez as mandalas sejam mais fáceis de abrir do que sustentar. Parece que não se consegue manter o lung; às vezes nem o focalizador tem o lung de sustentar a mandala. Começa a haver um esvaziamento da mandala.

Quando isso acontece, a gente pode entender que a mandala não tem mérito. Se não aparece lung é melhor parar. Por outro lado, pode estar faltando habilidade, porque o papel principal do focalizador é conversar com as pessoas e ouvi-las sobre as várias coisas. O focalizador não deve determinar o que as pessoas têm de fazer. Quando a mandala começa a virar um processo em que as pessoas se juntam para ouvir o que precisa ser feito, a energia vai baixar.

As reuniões de mandalas devem ser primeiro costuradas. Começamos expondo: “estou pensando em tais objetivos; tive essas ideias; o que vocês acham?” Então somos parceiros da geração das ideias, das soluções. De modo geral, quando as pessoas são parceiras, elas estão dentro de fato. Aparece o lung e a pessoa se sente beneficiada. Mas quando a pessoa tem tarefas para fazer, ela desanima. Vocês podem observar que quando vão a um lugar e ninguém pede a opinião de vocês, só dizem que precisam que vocês façam isso ou aquilo, a energia baixa.

Além disso, quando se recebe ordens de outros também estamos sobrecarregando a pessoa que está dando ordens. Ela tem a sensação de estar sozinha, de ser obrigada a pensar em tudo. A sensação de sobrecarga vem acoplada com a ideia de que ela precisa de soldados. A mandala é uma forma coletiva de pensar que alivia essa sensação. A gente precisa de aliados, a gente tem de conversar com as pessoas. Apesar de levar tempo, vale a pena.

A ideia é fazer parcerias, provocar o surgimento do lung. Em vez de dar ordens aos outros, vamos pensar coletivamente. Quando há uma reunião, muitas vezes já conversei com cada um e estamos de acordo. Mas seguimos fazendo perguntas para que a riqueza do outro possa aparecer, principalmente se vier com lung. A gente não pergunta por perguntar, pergunta mesmo. O que o outro disser, é uma riqueza. Nós precisamos dessas ideias.

Vejo que os nossos CEBBs podem gerar um funcionamento maravilhoso, criando escolas, áreas de saúde, beneficiando quem vai morar lá. Para prosperar como uma comunidade, devemos no mínimo dominar o processo de alimentação, saúde e educação. Então sim, temos um sonho coletivo que é prosperar como uma comunidade que vai andando. O melhor é não depender dos processos de saúde caótico, com visões problemáticas. A maior crítica ao processo de saúde vigente é que não empodera a pessoa da transformação da sua própria vida. Não diagnostica os problemas da vida associados ao problema de saúde. O médico não diz: “mude a sua vida, mude tais coisas”. Não tem nem tempo para tratar disso; ele vai trabalhar no sintoma.

A realidade é que esses profissionais fizeram o curso de medicina, mas não fizeram alguma coisa para curar a si mesmos, para se equilibrarem. Sem essa preparação, vão trabalhar num lugar super demandante e lidar com o sofrimento dos outros sem ter uma compreensão do aspecto da saúde mesmo. Tratam a doença, mas desconhecem outros aspectos, como a recuperação da saúde e a remoção dos fatores de adoecimento. Acredito que a política está diretamente ligada às questões de saúde. O modo pelo qual vivemos no mundo é regido pelo processo das relações, dos sonhos, de como é que a gente vive. Assim, a maneira pela qual a cidade está estruturada pode ser fator de adoecimento.

Em nossa comunidade a transformação interna faz parte do processo diretamente. A nossa educação e a nossa medicina são diferentes. Nossa arquitetura também é diferente, estamos construindo deste jeito agora, mas podemos construir de modo diferente depois. Nós estamos dispostos a mudar. Somos uma comunidade disposta a mudar. A gente vive a vida.

Outro exemplo: mandala de eventos. Eu começaria deste ponto: na década de 70, organizei muitos eventos através da universidade, da Assembleia legislativa, organizei a vinda de Sua Santidade o Dalai Lama a Porto Alegre, a Curitiba… De que modo conseguimos organizar coisas super complexas como, por exemplo, a Exposição das Relíquias dos Budas, com muitas despesas e sem recorrer ao faturamento da lojinha nem à coleta de doações nem à cobrança de ingressos? Como cobrimos os gastos? Não foi fácil, mas conseguimos. Sempre pelo processo de mandala: olhar as coisas, planejar e fazer funcionar.

Na década de 70, também organizei eventos grandes, por exemplo, com relação à energia nuclear. A gente raciocina, sonha, amplia o círculo, obtém ajuda de vários lados e dali a pouco as coisas começam a funcionar. Fazemos um grande evento de oposição e convidamos representantes do governo. Eles não deixam de vir porque o evento é grande. Então podemos dizer as coisas e eles são obrigados a ouvir. Mas depois a gente sai dali e vai jantar juntos, continua conversando. Temos ideias opostas, mas mantemos boas relações, somos amigos, somos seres humanos.

A mandala de eventos é super importante. No nosso caso, significa mais do que organizar um acontecimento: estamos testando a nossa criatividade, a nossa energia constante, a nossa motivação, a pureza da nossa aspiração.

Os eventos são fundamentais para o CEBB. Vejam, o CEBB não tem mensalidade, não tem ficha de inscrição, não sabemos o nome das pessoas nem de onde vêm, é uma escola aberta. As pessoas vêm, ouvem os ensinamentos, fazem práticas. Por si só os eventos representam os pulmões de funcionamento do CEBB, pois é nesse momento que mais pessoas se aproximam. Talvez no cotidiano nem viessem, mas nos eventos elas vêm.

Outra questão: estou há anos tentando organizar uma coordenação nacional, mas ainda não conseguimos avançar, pois não está clara na minha mente nem na mente de ninguém. Vou tomar esse outro exemplo de funcionamento da mandala: por que a gente precisa de uma coordenação nacional? Acho que é muito útil porque posso fazer os tutores passarem pelas várias regiões. Eu já não consigo mais passar nos vários CEBBs, nem mesmo uma vez por ano. Então, estrategicamente, vou privilegiar os CEBBs rurais, que são regionais. Eles são muito importantes porque têm um sonho, não estão tratando as coisas cognitivamente. As pessoas que vão àquele local têm o benefício do próprio local. Começam a sonhar com aquilo e começam a achar que suas vidas podem mudar. Surge um lung de que o mundo pode ser construído de modo diferente.

Na minha avaliação, o samsara está se desorganizando, por isso precisamos criar núcleos de organização do samsara. Ainda não sabemos bem como esses núcleos poderão ser importantes para ajudar a acolher as pessoas. Isso é muito importante em crise de emprego, de alimentos, todo tipo de crises. Num CEBB rural, temos uma coletividade que pode se juntar e trabalhar junto e resolver os problemas juntos. No mínimo a gente tem onde cair morto. Funciona como casa de mãe: tudo quebrado, mas a gente come, dorme, tem alojamento, as casas dos amigos, a gente está ali. Gera uma operação e vai andando.

Muito frágil gerar todo esse movimento só com as cidades. Na medida em que a cidade gera problemas, vai desaparecer o darma, pois os praticantes desaparecem na medida em que precisam lidar com as aflições de suas próprias vidas. As pessoas se unem na sala de prática, mas não têm o que fazer a não ser meditar. Aquilo não sustenta a vida da pessoa. Já as áreas rurais são super preciosas.

Estou privilegiando os funcionamentos das áreas rurais e também os tutores, pois precisamos de gente experiente que possa passar o darma, ouvir os outros, acolher, facilitar. Estou estimulando os retiros. Precisamos em cada CEBB de área de retiro, área de alimentação, área de saúde, de educação. Precisamos de água própria, alimento, saber como curar as pessoas, alimentar as pessoas de forma simples mas de forma valiosa, precisamos conhecer as plantas, ter intimidade com as plantas, gostar das plantas.

Os tutores são muito importantes. É importante que os tutores tenham uma mobilidade, que andem pelos vários CEBBs para que esses espaços não fiquem abandonados, para que desenvolvam especialidades. Quem vai coordenar? Uma inteligência nacional, alguém que pense o conjunto.

Outro aspecto importante é o deslocamento de pessoas de acordo com a necessidade. O CEBB nacional pode ajudar a resolver quem é o tutor que vem para Canelinha para morar. Como é que se organiza um fluxo?

Agora, por exemplo, a gente precisa trabalhar os esgotos. Já temos uma solução local que podemos generalizar e oferecer para outros CEBBs. Isso é tipico de uma coordenação nacional. Nas obras daqui já fomos beneficiados. Recebemos um empréstimo de Alto Paraíso. Assim, se há recursos em uma região que não estão sendo usados, podem ser deslocados para outra área; depois, retornam. Por outro lado, é crucial que os vários CEBBs tenham CNPJ local, estatuto local, administração local, porque são células. Se temos uma organização muito grande e dependente de uma única diretoria, perdemos a capilaridade local. Além do mais, se houver uma fragmentação dos CEBBs, cada um pode seguir como uma planta em que cada folha se enraíza em si mesmo e segue. Mas o melhor seria termos tudo separado e ao mesmo tempo unido.

Seria bom ter no site do CEBB uma infoteca: esgoto, construção, etc, vários links sobre diversos assuntos. Se cada CEBB fizer relatórios mensais, semestrais e anuais, tipo um álbum com fotos, das atividades que foram feitas, será possível perceber que se alcançou muita coisa, que muita coisa foi realizada durante o ano. Em Viamão estamos perdendo a memória. Se conseguirem fazer isso aqui, será muito rico. É a história do budismo que está se constituindo. A Revista Bodisatva é muito importante, pois apresenta registros de chegadas e ensinamentos de vários mestres que já morreram, da vinda de Sua Santidade o Dalai Lama. É a história do budismo, apesar de não estar completa.

Estamos cheios de coisas boas para fazer. Diferentes pessoas podem trabalhar em diferentes coisas e as mandalas vão se abrindo. Mas se nós começarmos a pensar que precisamos de braços para fazer aquilo, as mandalas vão perder a força.

Nem sempre tudo funciona bem. As mandalas podem ficar feridas pela dificuldade de coordenação. As mandalas da cozinha no Caminho do Meio, por exemplo, têm problemas, estão sempre tropeçando. Às vezes as pessoas estão intrigadas, não estão dialogando bem entre si e a comunicação não flui. Começam a surgir problemas, obstáculos internos que afetam a mandala. Para fluir, a mandala precisa ouvir as pessoas.

Tem uma forma de diálogo apreciativo que é muito importante. Como num evento deste, por exemplo: a gente faz uma reunião agora e vê quem quer participar na mandala dos eventos. Então sentamos em grupos e cada um vai dizer o que viu funcionando bem e vai dando ideias para fazer aquilo funcionar ainda melhor. No próximo evento, a pessoa que deu palpite vai se engajar de algum jeito. Aparece o lung porque se olhou as coisas favoráveis. Nasce uma chama, todo mundo se alegra.