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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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Não-culpa e ação irada | Lama Padma Samten

Não-culpa e ação irada | Lama Padma Samten

Transcrição de um trecho do ensinamento oferecido por Lama Padma Samten durante o retiro “Treinamento para iogues do cotidiano”, de 25 a 29 de maio 2016, no CEBB Caminho do Meio (Viamão, RS)

Eu prefiro agir desse modo, não-culpa. A culpa personifica: eu estabeleço uma personalidade, reifico uma identidade que, enfim, é o ser que está culpado, introduzo uma dimensão de ignorância em cima disso, introduzo um obstáculo. Se pudermos escapar dessa noção de julgamento, culpa, caracterização, é melhor. Vamos ajudando a mudança de consenso, de tal maneira que aquilo migre numa outra direção em que não precisamos julgar, caracterizar, fotografar, definir aquilo tudo e então, condenar. Vamos procurando sempre nutrir as sementes positivas e evitar os aspectos negativos. Isso equivale às quatro formas de ação.

A primeira das quatro formas de ação é a ação tranquilizadora: quando o outro está fazendo uma ação negativa, nós o acalmamos. Você jogou a bomba em Hiroshima? Então fique calmo agora, não jogue em Nagazaki, por favor. Pode ser que funcione, pode ser que não funcione. Há também a ação incrementadora, que eu considero um meio hábil maravilhoso: vocês estão se defrontando com vários ambientes negativos, aí olham cuidadosamente e veêm qualidades positivas nas pessoas que estão fazendo ações negativas, então nutrem essas ações positivas. Isso funciona porque, na medida em que elas se ocupam com ações positivas, já não estão mais fazendo as ações negativas, e estas vão perdendo sua função. Se você faz uma coisa, não faz outra, aí consegue contornar a situação. Com as crianças fazemos isso facilmente: uma criança está fazendo alguma coisa e você desvia a atenção dela para uma outra coisa, ela abandona a primeira e vai fazer esta que você propôs. Não pegamos a criança, caracterizamos, culpamos, julgamos nem condenamos. Em vez disso, aguardamos um outro momento mais fácil, em que voltamos àquele item e podemos falar diretamente, ou através de uma história, ou de um exemplo, que a criança registra, se desloca da bolha correspondente e não entra mais naquilo.

Essa perspectiva de análise — caracterização, culpa, julgamento, condenação e penalização — é super complicada, é mais fácil contornarmos esse aspecto. Às vezes vamos precisar de um enfrentamento direto, mas essas quatro ações são a primeira coisa. O primeiro ponto é nós não nos perturbarmos, que significa o lodo não gerar lodo em nós. O segundo ponto é a ação tranquilizadora, desarticular aquilo. O terceiro ponto, a ação incrementadora. O quarto ponto é a ação irada, que é o enfrentamento direto; às vezes vamos ter que fazer isso.

Às vezes eu descrevo esse enfrentamento direto como tolerância zero, até para usar um pouco a mídia — no caso, a mídia do Bush, que é uma mídia da direita — mas eu procuro usar isso recriando essa imagem numa dimensão positiva. Tolerância zero é não deixar de ver. Compaixão é não permitir o êxito das ações negativas. Se pudermos evitar que uma pessoa tenha êxito em uma ação negativa, melhor. Melhor porque? Não é que estejamos contra a pessoa ou que também tenhamos agora uma fixação no lodo; não é isso, nós não estamos jogando um jogo. Se a pessoa tem êxito em ações negativas e as segue executando, ela fica fixada nessas ações e é difícil de tirar a pessoa dali. Precisamos protegê-la, evitando que haja sucesso dentro de ações que vão criar um ambiente super negativo para ela própria. Não deveríamos permitir que essas bolhas tenham êxito, isso é tolerância zero. Não é tolerância zero com a pessoa, não é falta de paciência, não é dureza, não é maldade, não é irmos para o inferno e atacar a pessoa. É tolerância zero com a bolha de realidade que está produzindo aquilo. Notamos aquilo: se temos capacidade de desarticular, desarticulamos; se não temos, registramos — não perdemos a oportunidade de registrar.

Considero que esse ponto da tolerância zero está totalmente abandonado no tempo em que estamos vivendo agora. Uma época eu estava estudando a história do conhecimento em várias culturas, e vi algo interessante relativo ao pensamento chinês. Dizia-se que, no tempo em que o Taoísmo regia o Imperador na China, quando ocorria um crime, as pessoas não procuravam o autor do crime (na nossa linguagem isso seria caracterizar, fotografar, punir, etc), mas procuravam o ambiente (a bolha de realidade) que tinha permitido à pessoa fazer aquele tipo de ação. Como a pessoa achou que aquilo era favorável? Esse é o verdadeiro inimigo, vocês entendem? Se eu pegar uma pessoa, culpar, caracterizar e prender, aquilo vai seguir solto, pairando, vai pegar outro, outro, outro e aquilo ainda se expande. É a mesma coisa que colocar na cadeia todas as pessoas com dengue, enquanto a dengue continua fluindo. Estamos pegando a pessoa que foi vitimada e não o agente; o agente está no nível sutil. Vamos olhar como as ações não virtuosas estão pairando, estão totalmente disseminadas no nível sutil, na mídia em geral — reificadas, mostradas em detalhes. As pessoas adquirem esses referenciais, que viram os carmas delas mesmas; isso é um processo infeccioso. Mas se eu não vejo esse processo amplo, eu pego as pessoas que foram alcançadas pelas emoções negativas, eu culpo e condeno. Estamos longe de tolerância zero, estamos facilitando a disseminação da doença.

Vídeo do ensinamento

Assista ao vídeo do ensinamento (a partir de 1h10m15s):


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