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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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O Mahayana e os Aspectos Místicos

O Mahayana e os Aspectos Místicos

Transcrição da palestra realizada pelo Lama Padma Samten no CEBB Caminho do Meio, Viamão (RS), em 13 de abril 2005.

Durante um longo tempo temos abordado os ensinamentos aqui no Caminho do Meio dentro da perspectiva Mahayana, pensei em falar hoje os ensinamentos em uma abordagem complementar. A abordagem Mahayana é toda lógica, estruturada, ligada à nossa vida cotidiana, portanto, ela não tem nenhum aspecto místico. Todas as religiões têm algum ponto místico, mas na abordagem Mahayana não encontraremos nenhum traço místico.

A abordagem Mahayana enfatiza especialmente as quatro qualidades incomensuráveis: compaixão, amor, alegria, equanimidade; e as seis perfeições: generosidade, moralidade, paz, energia constante, concentração e sabedoria. No ensinamento do Nobre Caminho Óctuplo também não há nada místico. Em primeiro lugar vem a motivação e, a seguir, não trazer sofrimento aos seres com a mente, não trazer sofrimento com a fala, não trazer sofrimento com o corpo, as qualidades incomensuráveis e as seis perfeições, meditação em silêncio, perfeição da sabedoria – que é uma forma de olharmos todas as coisas através de vacuidade e luminosidade; e, finalmente, temos a sabedoria yeshe, sabedoria que localiza aquilo que é incessante, luminoso, sempre presente em qualquer experiência. Localizamos através de um processo direto, não há propriamente lugar para as deidades nessa abordagem, não há nem mesmo lugar para falarmos do Buda ou qualquer ser extraordinário. Nessa abordagem da perfeição da sabedoria não há lugares para qualquer aspecto místico.

Oráculo dos Dalai Lamas

Em nossa experiência cotidiana percebemos que há as experiências mediúnicas. No budismo não enfatizamos isso, mas não negamos. Há na tradição budista tibetana a noção dos oráculos, Sua Santidade Dalai Lama trabalha com o oráculo de Neshung. Na visão mística tibetana havia um ser de grande poder, como se fosse de uma intenção negativa. Guru Rinpoche atou por compromisso esse ser e ele se transformou em protetor do Darma, mais adiante se transformou no protetor dos Dalai Lamas. Todos os Dalai Lamas são protegidos por esse ser que se manifesta mediunicamente, os Dalai Lamas mudam, mas Neshung é sempre o mesmo, manifestando-se desde uma posição de lucidez, manifestando uma sabedoria. Ele não manifesta prajna, yeshe, ele manifesta uma sabedoria do mundo. Sua Santidade Dalai Lama diz “Eu não obedeço Neshung, Neshung me obedece. Eu escuto Neshung como escuto um ministro. Neshung fala, eu ouço e faço o que eu quiser.”

O oráculo não é completamente onisciente, não tem a visão de um Buda, é um ser com uma visão diferente. Por exemplo, se quisermos saber do tempo ligamos a televisão em certo horário e vemos um “oráculo” que diz: amanhã choverá. De um modo geral ele acerta, mas nem sempre. Houve uma época na “linhagem” desses seres que preveem o tempo em que eles erravam muito mais. Hoje eles têm olhos localizados a 100 quilômetros acima das nuvens e de lá a visão transcendente deles vê tudo. Agora eles estão com esse sidhi de mostrar para nós o que veem, eles fotografam e mostram na televisão. Assim, a partir da proteção deles descobrimos se vai chover ou não. Mas isso são coisas do mundo. Lá de cima, daquele poder todo, ele não diz “Você vai bater com o carro”, “Sua mulher vai sumir”. As coisas que mais importam, ele não diz. Um Buda veria as coisas realmente importantes, mas os oráculos dizem algumas coisas e não dizem outras. Esse ponto dos oráculos nos toca. De um lado, temos uma postura de fazer meditação em silêncio, de lucidez. E por outro lado, pensamos  “agora me aparece o oráculo…” Como vamos tratar disso?

Estou apenas introduzindo a questão mística. Mesmo que se tenha uma abordagem da perfeição da sabedoria, pode-se pensar que há alguma coisa a mais. Na visão budista todas essas dimensões são vacuidade. Curiosamente, dentro do prajnaparamita não se diz “todos os encostos são vacuidade, vacuidade é todos os encostos. Encosto é vacuidade, vacuidade é encosto. Santo é vacuidade, vacuidade é santo”. Não tem isso, mas poderia ter. De qualquer maneira precisamos olhar essas questões e já vou fazer um atalho: os santos são vacuidade, todas essas influências são vacuidade, se usarmos prajna ultrapassamos isso.

Seis Bardos

Os aspectos místicos se apresentam também em outra dimensão. Especialmente os tibetanos vão dizer que temos os seis bardos. Temos não apenas essa experiência lúcida durante a vida, como temos também o sonho. O sonho é uma região interessante porque dentro dele muitas coisas acontecem. Várias tradições budistas e não budistas valorizam muito os sonhos. Os jungianos e diversas tradições xamânicas, por exemplo, consideram os sonhos  muito importante. No budismo há duas vertentes: uma que não valoriza o sonho, porque se a realidade comum é vacuidade, o sonho seria supervacuidade, é um sonho dentro da própria vacuidade. E há uma corrente que vai atribuir certo significado ao sonho. Um significado muito hábil, muito interessante que está ligado à noção de vacuidade, porém, enquanto eu posso criticar o sonho e dizer que se reduz a vacuidade, posso também reconhecer o sonho como vacuidade não pela inexistência da forma, mas enquanto forma, ainda assim, ele é vacuidade. Com isso podemos pensar: já que essa forma é vacuidade, como ela surge? Qual é a origem dela?

Observo o conteúdo do sonho e vejo que ele corresponde a uma estrutura cármica que está presente. Não preciso atribuir uma estrutura sólida ao sonho para considerar que tem valor a análise de que ele está indicando uma determinada estrutura cármica. Não preciso negar que todas as coisas surgem por vacuidade e luminosidade, mas ainda assim, vejo que tem uma estrutura cármica que o sonho está revelando. Essa é uma forma mais profunda de examinar o conteúdo do sonho. Mas para muitos de nós o sonho é algo importante, sonhamos com pessoas falecidas, com situações que não vivemos ou aspiramos viver; encontramos pessoas à distância e aquilo parece que diz alguma coisa. Se dissermos que o sonho simplesmente não diz nada, isso não satisfaz porque sentimos que ele diz alguma coisa.

Também no nosso cotidiano temos uma dimensão mística que está ligada aos nossos próprios pensamentos. Temos uma habilidade de sonharmos acordados, vemos situações futuras ou sonhamos acordados com o futuro. Temos aspirações. Os quadros que sonhamos e aspiramos nos tocam e surgem energias que nos deixam mais vivos, mais felizes, ou, por vezes, assustados. Ainda que a gente passe por aquela situação de forma concreta, esse sobrevoo nos leva a essas regiões. Se simplesmente dissermos “os sonhos são sonhos, as imaginações são imaginações”, isso não satisfaz completamente. Sabemos que há regiões que nos tocam, regiões que penetramos por sonhos, dormindo ou acordados.  Eventualmente, o fato de penetrarmos nessas regiões, afeta a nossa direção no cotidiano. Deveríamos ter algum tipo de lucidez para saber como aproveitar essas experiências, que significados podemos dar e como lidamos com elas.

Depois temos a experiência da própria meditação. Em meditação podemos ter muitas experiências diferentes. Algumas pessoas veem luzes, outras veem a parede e as formas diante de si, ou veem a parede se abrir e a visão aparentemente atravessa, a pessoa vê coisas atrás. Essas são situações que podem acontecer durante a meditação e não entendemos muito bem. Ainda assim, guardamos essas experiências e elas vão povoando esse conjunto de imagens que não conseguimos entender completamente, mas sentimos que há regiões que podemos entrar e sair sem entender bem o que seja. Todas essas regiões povoam a nossa imaginação, pensamos que há algo extraordinário, algo místico que a religião deveria acessar, elucidar e entender. Volto a dizer que prajna entra em todas essas regiões. Com lucidez podemos entrar, esclarecer e ter estabilidade nisso. Mas, por enquanto, estou nesse papel de provocar o contato com essas áreas que temos falado pouco.

Também vocês vão ver a experiência do morrer. É comum durante a vida termos uma ou outra proximidade com a morte, através de acidentes ou doenças podemos passar muito perto dessas situações todas e elas nos trazem um tipo de experiência que não tivemos antes. Por uma razão ou outra, podemos ter essa proximidade com a experiência da morte e podemos ter dúvidas e sensibilidade com essa região. Podemos olhar e sentir que tem um mistério ali dentro, algo extraordinário. Aqueles que já se sentiram afetados guardam de forma nítida essas experiências. Eles sabem que o estado de saúde, de vida, é frágil. Podemos repentinamente nos aproximarmos da morte e as experiências que teremos serão muito diferentes das experiências ordinárias da vida. Guardamos essa sensação, eventualmente, de algo escuro, temos dificuldade de conduzir a nossa mente.  A mente se acelera, adquire significados e feições particulares e tentamos posicioná-la em outra direção. Porém, a nossa mente é arrastada numa direção como se fosse um vento forte, tentamos assumir o controle e percebemos que a nossa força é muito menor que a força das circunstâncias cármicas que nos arrasta em meio a essa proximidade da morte. Diante disso, podemos nos sentir muito frágeis e quando voltamos à situação onde temos controle aparente sobre tudo, guardamos essa memória de que aquela etapa não foi interessante. Estamos frágeis, mas não sabemos o que é essa etapa, não sabemos o que nos espera, temos novamente a sensação de que há regiões que não entendemos bem e podemos vir a ter que nos defrontar com essas regiões.

Ouvimos também experiências sobre o pós morte. Talvez alguém tenha lembrança ou tenha lido sobre isso.  Talvez vocês tenham passado por essa experiência, estiveram em coma ou acidentaram-se, estiveram em situações muito próximos da morte e retornaram por alguma razão. Essas regiões podem surgir como lembranças enevoadas, inexplicáveis, e enquanto estamos vivos, lúcidos, tentamos acessar novamente a experiência e não conseguimos. De novo, essas experiências povoam a sensação de que há algo que não acessamos propriamente durante a vida, são regiões místicas. Através de regressões, de sonhos e outros processos, talvez vocês tenham lembranças de terem chegado a sensações antes do nascimento, de encontrarem os pais, ou de terem uma conexão com mestres em outras vidas. Perguntamos “Isso significa o quê? Essas dimensões são reais ou estou apenas sonhando?”

Mesmo durante a vida podemos ter sensações místicas mais superficiais que estão ligadas às pessoas com as quais convivemos e, eventualmente, podemos imaginar que já vimos aquela pessoa que estamos encontrando pela primeira vez. Brota a sensação de que já vimos aquele ser. Olhamos no rosto e pensamos “Nossa! Eu falo alguma coisa e o ser entende! É extraordinário! Outras pessoas não entendem, mas ele entende. Não só entende como concorda e diz: sim, vamos fazer juntos”. Pelo menos nos primeiros três meses ele concorda com tudo… Temos essa sensação de uma identidade de outras vidas, tudo isso povoa esse universo místico. Mesmo que se pratique o prajnaparamita, a compreensão da vacuidade de todas as coisas, ficamos com certa dúvida: não haveria uma região em que o prajnaparamita não funciona tão bem?

Deidades do Budismo Tibetano

No caso do budismo tibetano vamos encontrar ainda outros elementos que não estamos acostumados, eles não pertencem a esse universo comum. Por exemplo, vamos encontrar os vários budas aqui nos tankas, no altar. Começamos com essa figura extraordinária de Manjushri, com uma espada na mão, uma flor de lótus e o prajnaparamita. 

Depois encontramos Arya Tara. Delicada, uma figura realmente encantadora; uma flor de lótus, arco e flecha na flor de lótus. Uma figura encantadoramente linda, se vocês acham ou não, isso não é o ponto, mas ela deveria ser.

Depois temos um ser com mil braços e um olho em cada braço, com onze cabeças, todas pensando para o bem, o que é extraordinário. Os mil braços de Cherenzig simbolizam os mil budas que virão, é a visão de mil budas. Estamos no quarto buda dessa era, é como se o Buda Sakiamuni fosse a emanação do quarto desses braços.  Muitos budas ainda virão para nos dar suporte e nos ajudar nesse processo todo, muitos “braços” virão.

A seguir temos o Buda Sakiamuni, que é o fundador do budismo nessa era, ele está sentado, está com uma mão no chão e a outra segurando a tigela. Ao lado temos Guru Rinpoche que é o Buda do Tibete: extraordinário, nascido do lótus, glorioso, poderoso. Ele se manifestou no mundo de várias formas e isso é traduzido por diferentes roupas que ele usa, uma sobre a outra.

Um pouco adiante vamos ver Vajrasatva. Olhamos e não percebemos que ele está abraçado com a consorte. Se fixarmos o olho, vemos que tem uma figura apaixonada olhando para ele, é a consorte. É um ensinamento muito importante sobre a inseparatividade do observador e do mundo como ele vê. Consorte é o mundo. Estamos o tempo todo inseparável de consorte, podemos não vê-la, mas estamos inseparáveis o tempo todo.

Depois tem outro ser poderoso, envolto em chamas e cores terríveis, que é o devorador de demônios. Coisa pouca, um ser tranquilizador.

Isso é só uma gota do panteão tibetano. São todos do bem.

Vocês vão ver um pouco abaixo outras imagens tridimensionais. Existem muitas imagens, todas elas significam também deidades, qualidades específicas. Acima, estão os cinco Diani Budas, cada um com uma sabedoria e uma forma específica. Nos armários do altar podemos ver imagens representando outras características, todas elas apelam para alguma coisa dentro de nós. Surge algo místico: onde é que eles vivem? Quem são eles? O que fazem? No budismo não há um único Buda? Há uma variedade de budas? O que isso significa? Dizemos que prajnaparamita e vacuidade é tudo, mas se prajnaparamita e vacuidade é tudo por que tantas imagens? Por que tantos mantras? Os tibetanos têm diferentes imagens e isso nos permite perguntar onde eles residem. Eu mesmo perguntei para Chagdud Rinpoche: “Rinpoche, em que lugar eles estão?”

Temos essa diversidade, logo, os tibetanos introduzem outros tantos elementos místicos.

Mundos sutis, sidhis, deidades mundanas

Os tibetanos vão falar também sobre a Roda da Vida, onde temos seis reinos. Um reino é humano, outro é dos animais, os demais reinos são outros lugares. Vocês vão ouvir dos mestres, como Trungpa Rinpoche, que diz: os seis reinos são aspectos da vida humana. Outros mestres vão dizer isso também, mas todos eles põem uma vírgula num certo momento e dizem “Há também os reinos específicos. Há mundos específicos, sutis”.

Existem os tertons, aqueles que são detentores da visão, eles voam por dentro de todos esses reinos e encontram os seres. Há também os delogs, que abandonam a vida dentro do corpo. O corpo enrijece, esfria, os batimentos cardíacos cessam e eles viajam por esses reinos todos, encontram seres, ouvem o que eles dizem, trazem recados; depois eles retomam a vida, o corpo se aquece, a respiração volta, o coração bate. Eles dizem: “olha, o pessoal lá mandou uns recados para vocês…”.

A mãe de Chagdud Rinpoche era uma delog, ela fez uma viagem desse tipo. Ela dizia “Vou abandonar o corpo em meditação e viajar pelos seis reinos.” E todos os lamas diziam “Não faça isso, você vai morrer, não faça isso.” Ela insistiu e eles se convenceram. Os lamas ficaram em volta dela por vários dias fazendo um único puja, dia e noite. Ela abandou o corpo, esfriou, cessou o batimento cardíaco, cessou a respiração e foi… E os lamas seguiram rezando. Depois ela voltou, o corpo se aqueceu, respirou, bateu o coração e ela contou o que viu. Ela encontrou Arya Tara, encontrou Tara branca que a levou pelos vários mundos; encontrou com pessoas, trouxe recados.

Há essa dimensão toda. Vocês também vão ouvir sobre as dimensões dos sidhis. Lamas praticaram certas coisas e desenvolveram diferentes feições de corpo, desenvolveram transformações extraordinárias, habilidades extraordinárias. Tudo isso está dentro dos sidhis e do aspecto místico. Vocês vão ouvir de mestres que, ao abandonar o corpo, o corpo se dissolveu, restaram cabelos e unhas. Vocês vão ver mestres que desapareceram no céu, se transformaram em luminosidade, em arco íris, e não deixaram nenhum traço, sumiram. Vamos encontrando todas essas categorias de coisas inexplicáveis.

Podemos ainda nos conectar com a noção das deidades mundanas. Temos um olho que começa a ver as deidades todas. Esse olho é interessante, vocês vão começar a desenvolvê-lo quando ao olhar os objetos perceberem a propriedade se manifestando dentro de vocês ao invés de vir do objeto, como acontece com os meninos pré-adolescentes. Dizemos: “Agora é hora do banho”. E está lá o menino diante do chuveiro, ele não tem a menor vontade de entrar na água, especialmente se a água é fria. Ele poderá dizer “A água é fria, não quero entrar no banho.” Mas se o menino for um praticante ele dirá “Tem algo profundo aqui. A água é apenas a água, mas eu tenho dentro de mim uma dimensão energética de fuga, de sair correndo”. Olhamos dessa forma em vez de olharmos o aspecto externo como o gerador do nosso impulso. Não explicamos mais “A água está fria, assim, eu vou fugir”, dizemos “Há algo que vejo surgir internamente porque a água está diante de mim”. Começo a examinar o surgimento interno, pode haver aquilo ou não. A água, para algumas pessoas, não é uma grande coisa, mas outras querem fugir. Começamos a olhar os objetos externos a partir desse olho e passamos a entender, lentamente, que há uma dimensão dentro de nós, essa dimensão pode ser repetitiva: diante de certas circunstâncias manifestamos as mesmas estruturas.

Cinco elementos, aspectos mágicos

Eventualmente, descobrimos que os cinco elementos são como cinco deidades. Todos nós temos uma relação lúdica com a água, todos nós temos uma relação lúdica com o fogo, com a matéria; ou temos uma relação lúdica com a rocha, com a pedra, com a madeira. Todos nós temos uma relação lúdica com o vento, com o ar, com o espaço, com a vacuidade e com o aspecto etéreo. Vemos que o éter nos diz alguma coisa, também a água, o vento, o fogo, a terra e a madeira nos dizem alguma coisa. Algo surge dentro de nós no contato com esses elementos. Vocês vão perceber, todas as tradições xamânicas vão fazer conexões. A águia não é a águia no céu, é a águia dentro de nós, ela é inseparável de nós. Não é o urso lá fora, é o urso que brota dentro de mim quando vejo o urso.   Quando vejo o urso, vejo que há alguma coisa dentro de mim. Quando eu olho para o lobo, algo surge dentro de mim. Cada animal tem um efeito. Quando surge o urso isso tem um efeito, uma energia dentro de mim, pode ser que eu consiga lidar bem, assumir essa energia e o urso se torna um protetor. Se eu não trabalhar bem com essa energia, eu tenho medo, não consigo me relacionar bem com a energia.

É natural, se eu estiver num espaço da natureza devo desenvolver uma capacidade de relação com os vários elementos: água, terra, fogo, ar, éter, urso, lobo, cão, gato, tigre… É necessário que eu desenvolva uma relação lúcida com todos os elementos. Cada um desses elementos e animais vivem dentro de mim. Assim, na visão xamânica, todos esses processos são deidades.

Também os homens, por exemplo, ao olharem as mulheres surge uma energia dentro deles; as mulheres olham os homens e surge uma energia dentro delas. Podemos olhar homens e mulheres como deidades também.  Essas deidades ultrapassam o fato de que a mulher se chama Maria ou o nome que ela tiver, vemos uma dimensão feminina. Do mesmo sentido que eu posso ter uma chama no chão hoje, amanhã vou ter outra fogueira, outra chama, mas é o fogo; posso ter uma água que encontro hoje, uma água que encontro amanhã, mas é água.  Vou encontrando esses elementos que podemos chamar arquetípicos, mas é preferível não usarmos essa noção, essa é uma noção psicológica. É mais que isso. Assim, podemos encontrar vários ursos, mas todos  são ursos. Vários lobos, mas todos são lobos. Temos essa dimensão. Do mesmo modo encontramos várias deidades, como Cherenzig, Arya Tara, Manjushri, todos eles simbolizam estruturas dentro de nós, porém, a nossa linguagem agora é diferente. Quando vejo os objetos, vejo essa linguagem dentro mim, é uma linguagem particular, vamos nos relacionar com o mundo a partir dessa linguagem que é totalmente mágica. É outra linguagem, outro processo. Não lido mais com processos externos, vejo em todas as dimensões aspectos mágicos. Porque estou vendo essas deidades, vejo o objeto e a energia do objeto, vejo a ação da energia dentro de mim. Dessa forma, sei que estou na relação com tal deidade.

Isso é outra forma de inteligência, outra forma de dar conta de tudo, muito mais sofisticada do que a usual, ainda assim, é menos sofisticada que o budismo. É uma forma xamânica. O budismo também entra nisso, ele decompõe e ultrapassa com prajna, que é o próprio prajnaparamita. Pode-se usar essa linguagem, mas o prajnaparamita olha essa linguagem não no sentido do que o fogo faz sobre mim, do que o aspecto masculino/feminino, ou o aspecto etéreo opera sobre nós, mas no sentido de que podemos olhar os aspectos variados, entendemos como eles operam, utilizamos isso e, ainda assim, somos completamente independentes, livres de todas as energias que atuam sobre nós através desses próprios processos; enquanto esse mestre xamã vai compor os elementos como um médico administra princípios ativos químicos para nos curar. O xamã usa isso e reequilibra o nosso funcionamento porque ele pega um elemento, combina com o outro e nos ajuda a fazer isso. O mestre Xamã é capaz de entrar no nosso sonho e transformar a base do conteúdo do sonho. É capaz de nos levar a ter um sonho específico que resignifica as nossas estruturas e nos deixa, por exemplo, imunes a elementos desse tipo. No budismo, ainda que isso seja visto como muito favorável, não estamos aqui compondo elementos como se fosse uma medicina, vamos nos tornar imunes pelo poder de prajna e não por uma combinação de elementos.

Vocês veem que todos esses universos são xamânicos, mágicos. Se pensarmos que não existe, estamos nos enganando, porque isso opera o tempo todo. Dentro do mundo da racionalidade convencional não percebemos, mas há essa presença incessante operando dentro de nós, quer a gente entenda ou não. O mundo místico, extraordinário, está presente onde estamos, o tempo todo.  Os xamãs entendem de observar os pássaros e os animais todos, eles entendem como os vários elementos atuam dentro desses animais. Do mesmo modo, ouvimos um cachorro latindo porque há algo sobre o qual o cachorro está sensível, existe um mundo interno no cachorro que dá significado às aparências. Ao perceber o comportamento das plantas, dos cursos d’água, dos animais, eles estão sempre olhando isso e eles se tornam muito hábeis em perceber que em pequenas variações há uma teia de respostas, de significados e de sonhos. A natureza inteira sonha e os xamãs veem os sonhos da natureza. Quando eles veem os sonhos da natureza, eles entendem os sinais, as transformações, entendem o que está acontecendo. Essa é uma visão muito mais profunda que a do caçador. Ele não está olhando isso porque quer caçar os animais, quer enriquecer ou quer poder. O xamã é um contemplador desses fatos todos. Essa contemplação do mestre xamânico já tem uma compreensão de vacuidade que pode ser real ou parcial, mas há essa dimensão toda que temos que admitir que exista.

Fontes de refúgio | Ensinamentos de Jamgon Kongtrul Rinpoche

Iniciamos olhando esses aspectos místicos e, aparentemente, eles seriam poucos. Mas agora já estamos vendo que há um universo místico enorme. Como o budismo lida com isso? Qual é a abordagem do budismo nesse sentido? Como vamos olhar esses fatos todos tão complexos?

Jamgon Kongtrul Rinpoche foi o primeiro mestre que eu ouvi falar. Curiosamente, é uma conexão interessante porque eu continuo vendo os ensinamentos dele, por uma razão ou outra ocorre esse fato. Jamgon Kongtrul Rinpoche é Jamgon Kongtrul III. Encontrei-o em 1989 no Rio de Janeiro, alguns amigos da tradição Shambala de Trungpa Rinpoche, que eram aqui do sul, sabiam o que se fazia no Cebb e disseram “você tem que conhecer Jamgon Kongtrul”. Jamgon Kongtrul veio ao Rio de Janeiro, eles pagaram a passagem e me levaram para assistir o retiro com ele. Ele era um jovem, deveria ter em torno de 36 anos. Fiquei muito feliz com os ensinamentos sobre a vacuidade, sobre a natureza da realidade, especialmente sobre a compaixão. É muito bonito ver um grande mestre dizer “Não se sintam bobos ao praticar amor, alegria, equanimidade, entendam que isso é lucidez.” É muito bom, porque temos poucas oportunidades de ouvir sobre isso. Na nossa vida ouvimos muitas coisas, mas pouco sobre a necessidade de praticarmos essas qualidades. Lembro da minha felicidade, voltando de ônibus de uma longa viagem do Rio de Janeiro, olhando todos aqueles ensinamentos que reafirmavam o que já estávamos fazendo. É maravilhoso poder ouvir os grandes mestres e dizer: esta é a linhagem dos mestres budistas.

Na época eu estava conectado ao Zen, a palavra compaixão é muito pouco usada no Zen.  Compaixão e amor, se vocês ouvirem alguma vez num centro Zen, realmente é alguma coisa extraordinária, porque eles não falam sobre isso. Nesse retiro, lembro que Jamgon Kongtrul falou sobre seis reinos e sobre refúgio. Falou sobre várias coisas, sobre a natureza da realidade também, mas me chamou a atenção essa questão dos seis reinos e dos refúgios, ele analisou as fontes de refúgio. Assim, vou iniciar a abordagem desse tema místico através das fontes de refúgio, que é um critério especial que podemos imediatamente aproveitar.

Citei muitas diferentes deidades, muitos diferentes processos místicos. Jamgon Kongtrul Rinpoche dizia: “O refúgio é alguma coisa que está além da impermanência. Vocês não tomem refúgio em seres poderosos, forças da natureza, manifestações mediúnicas, pessoas famosas, pessoas de poder, ou pessoas que tenham morrido. Não tomem refúgio em pedras, montanhas, cursos d’água. Não percam tempo, todos esses aspectos são impermanentes, não têm a lucidez da natureza última.” A natureza última não tem origem e não tem fim. Se pensarmos assim: urso, lobo, cão, águia, fogo, água, terra, ar, todas essas coisas têm um comportamento relacional, elas pertencem ao mundo, são forças reais, mas não são fontes de refúgio.

Quando buscarmos apoio nos aspectos místicos que não representam a natureza ilimitada, sem origem e sem fim, sem espaço e tempo, sem nome e forma, estaremos nos fixando a fontes de refúgio que nos levam a perpetuar o comportamento de equilibristas. Se estiver doente, eu tomo um remédio e esse remédio equilibra a minha febre, por exemplo. É muito importante que eu saiba tomar um remédio e baixar a febre, isso é muito útil, mas esse remédio que baixa a febre não é a saúde; ele é um remédio que baixa a febre, não podemos comparar isso com a saúde.  Chegamos numa farmácia e temos milhares de substâncias a nossa disposição, cada uma delas nos arrasta numa direção. Nenhuma delas é um frasco que eu abro e digo “isso é saúde”. Todos eles são processos hábeis que nós, como se tivéssemos um bambu, estamos equilibrando e em nenhum momento vamos poder parar, se parar o bambu cai.  Todas as fontes de refúgio que vêm do movimento do meu braço são importantes, por isso o bambu está equilibrado, mas tenho um movimento incessante. Ele está equilibrado, mas com uma sucessão de movimentos desequilibrados, uma sucessão de posições em desequilíbrio. É necessário que eu esteja constantemente focado para equilibrar isso.

Há uma única posição que, enfim, há o equilíbrio, chamamos essa posição de fonte de refúgio. Essa fonte de refúgio é a origem de todas as manifestações, não é um movimento desequilibrado. Essa origem de todas as manifestações é a própria natureza de Buda dentro de nós, está fora da roda da vida. Quando estamos dentro da roda da vida oscilamos com isso. Essa é a resposta parcial, isso não encerra a nossa conversa. Mas, dentro de toda essa diversidade mística, ela nos oferece um elemento. Dentro dessa diversidade toda de influências há uma fonte de refúgio que é a natureza ilimitada que não tem início e não tem fim, não tem nome e forma. Nossa natureza é incessante, luminosa, onisciente, compassiva, amorosa. Ela não é assim porque certo evento surge, é assim incessantemente. Começamos a comparar as fontes de refúgio verdadeiras com as fontes de refúgio que são remédio, elas têm qualidades, mas são remédios, são fontes de refúgio parciais. Por exemplo, a nossa conta bancária é uma fonte de refúgio parcial. Não posso pensar que ela vai durar para sempre. A nossa conta bancária pode ser roubada, podemos ter vários problemas. Mas se eu disser que ela não tem nenhum valor, isso também não é verdade, ela tem um valor, a conta bancária é algo extraordinário.

As fontes de refúgio comuns são muito importantes. Se adoecermos chamaremos um médico, chamaremos um xamã. Vamos pedir  “Por favor, me ajude. Eu queria uma sobrevidazinha.” Ele vai dizer “Isso é fácil: não coma tal coisa, abandone o açúcar branco, farinha branca e provavelmente tudo vai melhorar. Faça uma dieta de dez dias de arroz integral bem cozido, etc.” E a partir disso melhoramos e recobramos a saúde,  porque o arroz integral é um bom protetor. Existem muitos bons protetores, mas nenhum desses protetores é não nascido, ilimitado, incessante, nenhum deles cura a morte.  Esses protetores são úteis, mas eles não se comparam com a natureza ilimitada, porque a natureza ilimitada nos protege da morte, nos leva além de vida e morte, além de nome e forma. Essa natureza se manifesta incessantemente. Se soubermos disso, ótimo, se não soubermos, estamos perdidos. Mas, de fato, mesmo não sabendo, nos achando perdidos, não estamos perdidos. Nossa natureza é infalível, ela é ótima no sentido de que mesmo que eu não saiba, eu não me perco. Todas as tradições vão dizer isso, nós morremos e não termina. Até mesmo na tradição cristã não termina. Apenas na tradição niilista, nós morremos e viramos um buraco negro.

Grande Perfeição | Aspectos místicos como expressões da natureza ilimitada

Existem as fontes de refúgio que, na verdade, são uma única fonte de refúgio que representa a natureza ilimitada. Esse é o grande diferencial. A natureza ilimitada está além de espaço e tempo, nome e forma, vida e morte; somos inseparáveis disso, esse é o aspecto místico budista máximo. Quando praticamos em silêncio não estamos olhando nada dos aspectos místicos, estamos centrados diretamente em localizar isso que não tem início e não tem fim, nem nome e nem forma. Essa é a nossa experiência fundamental, portanto, mesmo que a gente não tenha focado a comparação com as tradições xamânicas, mediúnicas, ou seja qual for a tradição, naturalmente estamos focando o ponto principal.  Se localizarmos essa natureza, ultrapassamos todas as outras fontes num único salto sem precisar passar por dentro delas, e isso o caminho Mahayana faz.

Assim, vem a pergunta: essa diversidade de budas, como fica? O que veremos agora já é algo mais sofisticado ainda. Por exemplo, dentro desse olho extraordinário onde vemos todas as coisas aparentes como inseparáveis da natureza de Buda, vamos reconhecer todas as coisas como vacuidade, isso é o prajnaparamita. Todos os darmas são vacuidade, são surgidos, são expressões dessa natureza luminosa e vazia. Os ursos são assim, os lobos são assim, todas as formas são surgidas dessa manifestação.

Agora fizemos um up grade na nossa visão.  Não estamos dizendo: os lobos são lobos. Os lobos são manifestação da natureza última, por isso são lobos. Olhamos os ursos, os animais todos, olhamos cada vegetação. Ao olhar para uma roseira observe o que acontece dentro de você, com a rosa e com a planta. Capture essa energia da roseira, ela está presente dentro de você.  Ela está ali, mas tem uma presença luminosa que produz a aparência da roseira como ela é. É uma manifestação da natureza ilimitada que se fez roseira, outra natureza ilimitada se fez pinheiro, outra se fez pedra, se fez as várias coisas, tem uma energia correndo por dentro dela, tem uma liberdade se manifestando assim. Todos esses seres são aquela aparência, mas aquela aparência está em contínua mutação, portanto elas são essencialmente uma energia de vacuidade e luminosidade em constante transformação, em constante busca de equilíbrio, como nós também. As folhas vêm, as folhas caem, a seiva sobe, a seiva diminui, a chuva vem, o sol vem e tem mudanças incessantes. Tem uma presença viva ali dentro, uma presença cósmica, extraordinária, não há nada na natureza que não tenha essa energia circulando, essa energia viva operando. Olhamos desse modo e vemos budas com diferentes faces, com todas as manifestações. Vemos a energia de budas se manifestando e produzindo aquelas faces todas. Desse modo, estamos contemplando a vacuidade e luminosidade, porque essa energia de Buda é a própria vacuidade e luminosidade, incessantemente se manifestando em todas as aparências.

Veremos que há aparências mais sutis, extraordinárias, como a bondade dentro de nós, por exemplo. Vemos surgir bondade, compaixão, amor, alegria, mas não sabemos de onde surgem. Surge amor, mas vem de onde mesmo? Com isso, começamos a intuir as deidades, localizamos esse amor como manifestação dos budas, do mesmo modo que as pedras, as plantas, os ursos, os lobos, as minhocas, os cachorros, os gatos, nós, os seres.  Há um nível mais sutil, vamos chamar isso, nos níveis das deidades, de Buda. Veremos os grandes meditantes em retiros, parados, sem piscar, eles localizam a natureza última. Eles vêm que dessa natureza última surge a meditação, da meditação surgem os cinco Diani Budas, dos cinco Diani Budas surgem outras expressões mais sutis que não são propriamente humanas ou físicas, são manifestações que vão se traduzir dentro de nós e dos seres. A compaixão não é uma qualidade apenas dos seres humanos, ela já é uma manifestação extraordinária porque a compaixão não é uma manifestação de autoproteção, é um mecanismo de proteção mais amplo. É uma deidade, isso é Buda se manifestando. E assim vamos ver diferenças que vão ser representadas, enfim, por deidades, com corpo antropomórfico, com corpo com aparência humana, humanóides.

Vocês olhem Dorje Drolo,  que pode ser mal interpretado, porque aquela aparência dele está mais ou menos. Dorje Drolo significa o devorador de demônios, um nome também não muito tranquilizador. Dorje Drolo representa a capacidade de nos defrontarmos com tudo aquilo que é negativo e ultrapassarmos esse aspecto de negatividade. Quando entendemos a natureza da vacuidade dentro de nós, imediatamente sabemos que nada resiste a essa vacuidade. Todas as coisas ultrapassam as aparências, todas as aparências são transitórias. Quando nos valemos dessa vacuidade, olhamos os aspectos atemorizadores diante de nós e dizemos “Isso é construído.” A sua essência é vacuidade e luminosidade, não tenho porque temer.  Mas é Dordje Drolo o protetor, porque é apenas o aspecto externo que é tocado,  a nossa essência não pode ser tocada. Então, devorador de demônios é aquele que olha para os demônios, ele não tem medo. Na verdade, revelando a natureza aparente do demônio como uma construção, ele dissolve o demônio, todos os demônios se assustam.

Ao olharmos para Dorje Drolo o que é que treme dentro de nós? Quando vemos uma figura assustadora, o que é que treme dentro de nós? Vocês acham que a nossa natureza ilimitada treme? Ou é a nossa natureza de fragilidade, são as nossas construções que tremem? São elas que tremem! Quando vocês olham uma figura assustadora e tremem, Dorje Drolo está presente ali, por que ele fez tremer o que? Aquilo que não somos. Dorje Drolo apareceu e olhou para nós e vimos que fomos olhados, a nossa fragilidade viu Dorje Drolo. Dorje Drolo está ali. Tudo isso é o aspecto místico. Vemos uma imagem e trememos, porque dentro de nós o aspecto de fragilidade, de engano que queremos sustentar de qualquer jeito tremeu. Dorje Drolo está vivo e faz um contato direto com os demônios que acalentamos como se fossem nós mesmos , carcereiros, que prendem a nossa mente. Dordje Drolo faz um contato direto, é a habilidade dessa linguagem. Quando vocês olharem uma imagem desse tipo, que é um buda irado, e vocês tremerem dentro ou sentirem respeito, vocês agradeçam, vocês receberam uma transmissão, vocês foram tocados por esse Buda. Ofereçam pelo menos um incenso e guardem isso porque é muito importante. Essa é uma linguagem não verbal, uma linguagem extraordinária. Vocês não pensem que isso é por acaso, todos esses elementos foram desenvolvidos pelos budas.

Qual foi a inteligência que gerou esse procedimento para nos ajudar a localizar isso? Quem foi que gerou isso? É uma inteligência búdica, uma inteligência como Manjushri, como Cherenzig, Avalokitesvara, que olha para os seres atrapalhados e tenta gerar um mecanismo de ajudá-los, mesmo que não tenham capacidade de entender, com dificuldade de raciocínio, que não sejam alfabetizados, eles olham para Dorje Drolo e entendem alguma coisa. Essa é uma linguagem extraordinária, assim surgem as várias deidades. Vocês respeitem cada um dos protetores porque eles estão trabalhando nessa dimensão.

Essa dimensão não é mais sutil que a dimensão do silêncio, da decomposição das aparências e a compreensão da natureza ilimitada dentro do silêncio. Se pudermos avançar assim, estamos andando num caminho direto muito rápido. Com essa forma do silêncio que usamos aqui avançamos diretamente no ponto.  Não precisamos palmilhar todos os nossos medos. Nos reforçamos no contato com a natureza última e quando encontramos os medos, nós sorrimos para eles, é mais fácil. Se não temos essa compreensão, no início olhamos as várias deidades e nos assustamos. Talvez não seja no início, durante um longo tempo nós desenvolvemos uma relação de susto e de incompreensão. Vamos recitar muitas vezes os mantras, vamos ouvir ensinamentos, receber iniciações para poder operar dentro disso, até que a gente tenha uma realização. Mas se temos o caminho direto e olhamos de forma nua, direta, com a perfeição da sabedoria avançamos mais rápido.

Há esse universo místico, essa linguagem maravilhosa. Espero com o tempo que a gente também tenha templos aqui dentro para a água, para o ar, para o fogo, para as várias deidades. Temos uma área aqui no Cebb Caminho do Meio onde podemos ter pequenos templos, pequenos recantos, que nos permitirão ter contato com essas deidades, podemos senti-las todas como representando a natureza ilimitada. Isso seria um avanço, algo maravilhoso podermos nos relacionar a partir dessa noção de prajnaparamita. Temos a noção de luminosidade e vacuidade, não precisamos virar os olhos, abandonar, podemos olhar e ver que todas as deidades se curvam a Guru Rinpoche. Guru Rinpoche entra no Tibete, todas as deidades fazem prostrações, todas as imagens, todos os yidans fazem prostrações para Guru Rinpoche.  Dizemos que quando o Buda Sakiamuni entra na sala todas as deidades se curvam ao Buda. Por mais poderosas e gigantescas, por mais maravilhosas que sejam, elas se curvam a Cherenzig, se curvam a Buda Sakiamuni, a Guru Rinpoche. Quando Guru Rinpoche entrou no Tibete, as montanhas se curvaram a Guru Rinpoche, os cursos d’água, todas as deidades comuns se tornaram protetores do Darma.

A linguagem mística existe, existe o mundo místico, existe o olho místico, mas a primeira transição que fazemos quando acessamos esse ponto místico é observar: as deidades são permanentes ou não? Estão submetidas à roda da vida ou não? Vocês vão ver que todas as deidades estão submetidas à roda da vida, exceto às manifestações dos budas. As manifestações dos budas não têm origem e não têm fim, elas são a natureza ilimitada, são as fontes verdadeiras de refúgio. Agora, quando vemos as fontes verdadeiras de refúgio, podemos entender que todas as manifestações comuns, todas as aparências da roda da vida, têm por essência a natureza ilimitada. Somos capazes de converter qualquer linguagem comum na manifestação da sabedoria de todos os budas e desse modo podemos olhar os ursos, os lobos, as plantas, os cursos d’água, os cinco elementos, podemos vê-los como expressões da natureza última também. Assim, a visão xamânica se funde com a visão búdica. Esse é o diálogo que aconteceu dentro do Tibete quando vêm os budas,  se defrontam com as tradições xamânicas antigas e se fundem com o budismo tibetano, olhando tudo isso de forma mística e, além disso, transcendo o aspecto místico, mas usando a própria linguagem.

Desse modo, vocês não tenham medo e procurem compreender as várias manifestações dessa maneira. A forma como trabalhamos no Cebb é, especialmente, com essa dimensão do silêncio e da lucidez, que é a dimensão que usei para explicar isso hoje. Passeamos por dentro do universo místico, mas usamos uma linguagem Mahayana, uma linguagem que explica, examina, vê exemplos, compreende e traz a perfeição da sabedoria;  linguagem pela qual entendemos que todos os fenômenos, portanto, todas as deidades, fontes de refúgio, todo o samsara, todos os seis reinos são expressões da mesma natureza ilimitada. E, assim, vamos chamar tudo isso de Grande Perfeição, de Kadag. Tudo isso tem uma pureza natural. Quando os budas olham as coisas eles não acham que estão erradas, eles olham e sorriem porque veem a perfeição em todas as coisas.

Transcrição e edição: Andiara Paz