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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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O que é um iogue do cotidiano? | Lama Padma Samten

O que é um iogue do cotidiano? | Lama Padma Samten

Transcrição de um trecho do ensinamento de Lama Padma Samten durante o retiro “Treinamento para iogues do cotidiano”, de 25 a 29 de maio 2016 no templo do CEBB Caminho do Meio (Viamão, RS)

Quando nós falamos “iogues do cotidiano”, nos referimos a iogues mahayana no cotidiano: nós temos uma aspiração de trazer benefício aos seres. Nós não estamos buscando isolamento, nós estamos buscando uma inserção no mundo. Aí vem essa questão: você não saia do lugar onde você está, você não precisa sair, mas você se torne um bodisatva naquele lugar. Amplie a sua visão, entenda os outros seres e descubra que você não tem muita capacidade de ajudá-los.

Quando você gera aspiração de ajudá-los, você está no mesmo lugar, mas a sua mente começa a mudar. Justo porque ela começa a mudar você também pode contemplar a sua própria mente mudando e ver que você não é aquelas identidades, você consegue funcionar de um outro jeito. Então esse é o nosso desafio. Mais adiante, eventualmente, saímos daquele lugar porque sentimos que em outro lugar podemos ser mais úteis. Então vamos andando assim. Mas inicialmente não saímos. Vamos usufruir o aspecto lúdico, vazio, mágico, luminoso, daquela realidade onde nós estamos. Progressivamente, vamos aproveitando as condições e seguindo assim. Então isso é o iogue do cotidiano.

Se nós pretendemos trazer benefício aos seres, temos que levar o caminho do Buda onde as pessoas estão. Porque, por exemplo, quem é que tem mais flexibilidade? Os praticantes ou as pessoas imersas nos seus mundos, fixadas, pensando que aquilo é totalmente sólido? Quem tem mais flexibilidade são os praticantes — e mais do que os praticantes, os mestres.

Por exemplo, se há seres no mundo dos infernos, a gente não pode chegar para eles e dizer “Olha, abandone o mundo dos infernos e entre no mosteiro e faça o caminho da virtude.” Eles vão dar uma olhada [e pensar] “Eu vou lá para assaltar o altar”. É assim… Ou os seres que estão no reino dos seres famintos: “E a comida como que é?” Eles estão olhando assim… Os seres ligados ao reino dos animais vão perguntar: “E o colchão como que é? E a comida como que é?”. E o reino humano vai perguntar: “Vocês dão certificado depois para eu justificar lá no trabalho?”. Os semideuses dizem: “E eu vou ficar forte? Vou ser capaz de competir e atingir uma realização? Vou ficar mais inteligente?”. E os deuses vão perguntar: “Eu vou ficar mais fascinante? Como é que vai ser?”. Esses seres estão fixados nas suas próprias motivações, nas suas próprias visões. Eles não estão dispostos a convergir para um coisa dessas nem vão ser capazes. Então, se eles não tem flexibilidade, nós precisaríamos ter flexibilidade de chegar naquele lugar com os meios hábeis e ajudá-los.

Os iogues do cotidiano não só praticam no cotidiano como trazem benefício aos seres no cotidiano. Isso é simbolizado por Guru Rinpoche, que nasce sobre uma flor de lótus. As condições do samsara são a água e o lodo do lago. Os seis reinos são o lodo que está no fundo desse lago e a água do lago é o sofrimento inevitável, as lágrimas dos seres. Porque é inevitável o sofrimento no meio dos seis reinos, eles têm frustrações o tempo todo.

Agora, quando nós estamos ali dentro e nos defrontamos com o lodo de cada um dos reinos, brota o quê? Mais lodo e mais água? Ou brota a flor de lótus? O desafio mahayana é brotar a flor de lótus, esse é o desafio dos iogues do cotidiano. Isso vai definir a nossa motivação. É também a avaliação da nossa qualidade, se a gente tem a capacidade de fazer isso mesmo, sempre, ou só de vez em quando ou só idealmente ou só abstratamente. Ou a gente é capaz de diante de circunstâncias específicas manifestar o surgimento do lótus, ou seja, da aspiração de beneficiar aqueles seres, de não ser envolvido pelo comportamento usual daqueles seres.

Por exemplo, a gente chega no reino dos infernos e a gente não vira um ser dos infernos, o que não é fácil… A gente está no âmbito dos seres famintos, eles estão todos correndo para pegar as coisas e a gente não vai correr para pegar as coisas. A gente está no reino dos animais, todo mundo amortecido, nós não vamos ficar amortecidos. A gente está no reino humano, todo mundo organizando o seu currículo e querendo ganhar mais e obter alguma vantagem, nós não vamos fazer isso. A gente está no reino dos semideuses, todos buscando então posições proeminentes e lutando uns contra os outros, nós não vamos fazer isso. E no reino dos deuses também.

Nós temos a capacidade de manter o nosso próprio eixo, que é assim: esse ambiente está produzindo sofrimento para todos eles, eu estou aqui dentro mas eu não sou daqui, eu estou aqui para beneficiá-los, para ajudá-los. Eu tento entender a mente deles e ajudá-los a ultrapassar as fixações deles que mantém eles presos ao lodo e a água. A liberação deles será também pelo brotar do lótus no coração deles. Se brotar o lótus, eles já estão fazendo outra ação que não pertence aos seis reinos, mas pertence à liberação propriamente. É assim.

Esse é o nosso movimento, esse é o caminho Mahayana. Aí brota o talo do lótus, mas nós não temos os meios hábeis ainda. A flor de lótus surge no topo dessa haste de lótus com as múltiplas pétalas que significa os meios hábeis todos. E nós sentamos sobre isso. Aí Guru Rinpoche senta, ele surge, ele nasce. Ele é padma, que é lótus… Padmasambava, nascido do lótus. Todos nós podemos nascer no lótus. Isso é o ideal do caminho mahayana: nascer no lótus. Nascer dessa motivação. Um nascimento mágico. A nossa motivação, o funcionamento da nossa mente, a nossa energia, todos eles vão operando a partir do espaço básico. Esse é o nosso processo de cura. A gente não vai fazer uma cura psicanalítica no sentido de localizar como é que surgiram os nossos obstáculos, mas simplesmente deixar os obstáculos soterrados no pó do movimento do mundo – eles vão ficar no lodo e na água, e nós surgimos com o lótus. Quando nós surgimos com o lótus, entendemos o que passou nas nossas vidas todas e que nós não somos aquilo.

Assim surge o bodisatva. Esse é o caminho do bodisatva em meio ao mundo. Vamos fazer esse movimento. Isso que é o iogue do cotidiano. É um iogue! Ele tem que manter a mente, a prática dele está em meio àquilo. Naturalmente, isso nos permite também integrar as práticas de retiro, integrar as meditações, os pujas, os altares. Também podemos nos mover por dentro de ambientes que parecem ser ambientes sravaka (em mosteiros, retiros etc), mas a nossa motivação é a motivação de reforçar o lótus, o nascimento no lótus. E nós estamos o tempo todo olhando os seres e aspirando ter essa capacidade de alcançá-los e ajudá-los. Esse é o processo.

Vídeo do ensinamento