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Budismo, meditação e cultura de paz | Lama Padma Samten

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Tempos de Degenerescência

Tempos de Degenerescência

Trecho de ensinamento do Lama Samten durante o Retiro de Inverno 2015, no CEBB Caminho do Meio, tarde do segundo dia.

Na vida nós rodamos para o topo e para o fundo, girando pelos seis reinos. Na nossa vida, nós giramos desse modo, mas podemos girar socialmente também. As coisas giram e têm um movimento social, coletivo. Coletivamente, podemos passar por tempos de degenerescência e tempos de mais lucidez, tempos piores e tempos melhores.

Aí a gente ouve: sempre que as situações estão muito difíceis, surge uma emanação do Buda. Então temos os éons; quando o éon se conclui, os ensinamentos desapareceram. É muito comovente ver a descrição disso. Quando falamos de éons, estamos falando lá pela faixa 4. Trata-se de algo meio intuitivo, que a gente não entende bem, mas que faz um pouco de sentido para nós. A gente está falando desses ciclos que acontecem, a gente não consegue colocar aquilo objetivamente, mas a gente intui que pode ser assim.

Quando os ensinamentos desaparecem, o Buda Primordial emana outros budas para reintroduzir os ensinamentos. Esse é o voto de Chenrezig; ele tem mil braços, nunca vai faltar esse momento onde um novo buda retorna e apresenta os ensinamentos.

Etapas da degenerescência

Então, a gente se pergunta: como é que a degenerescência surge? Tem o tempo do Buda, em que ele dá os ensinamentos. Ele está totalmente presente, de uma forma completamente lúcida. Depois vem o tempo em que o Buda já desapareceu, mas há os primeiros alunos do Buda, que viram o Buda, que ouviram o Buda, que atingiram realização semelhante à do Buda. Mas não são o Buda. Mas aquilo ainda está super bem. Aí tem o tempo em que não são mais os alunos que viram o Buda, mas os alunos que ouviram dos alunos do Buda. Eles já não têm a realização igual à dos mestres deles, a realização deles é menor. Eles entendem parte dos ensinamentos, mas vivenciam os ensinamentos, aquilo é claro para eles.

Aí tem o tempo em que quem está dando ensinamentos são aqueles que ouviram daqueles que não tinham o ensinamento completo. Eles ouviram mais ou menos, mas não conseguiram guardar aquilo na memória direito. Então, eles têm muitas anotações. Quando a coisa complica eles vão lá, folheiam e “ah, é assim, etc.”. Eles não têm propriamente uma realização, mas têm uma lembrança de onde encontrar aquilo. Aí a coisa vai piorando. Sempre que os ensinamentos vão ser escritos, aquilo corresponde a uma etapa de degradação, não importa em qual cultura. Porque isso significa que as pessoas não confiam mais na lucidez da sua mente, elas estão agora confiando em anotações de coisas que podem conduzir à lucidez. Então, a escrita é sempre um problema. A gente pensa: a escrita é uma evolução, mas a escrita é uma etapa de decadência. Com o tempo, nós temos muitas coisas escritas, muitos registros. As pessoas se valem desses registros, mas utilizam uma parte disso; elas não têm mais uma compreensão do conjunto dos ensinamentos. Mesmo daquilo a que elas tem acesso elas têm uma realização parcial.

Aí surge o tempo em que as pessoas têm os templos e têm os ensinamentos escritos. Os ensinamentos já não estão completos, as pessoas dominam mais ou menos uma parte dos ensinamentos, elas são capazes de transformar aquilo numa lembrança, não propriamente numa realização. Também tem o tempo em que os professores do Darma não têm realização propriamente, mas têm uma motivação equivocada, não têm mais uma motivação pura de trazer benefício aos seres. Eles têm uma motivação que começa a se misturar com o samsara. Num certo momento, os próprios ensinamentos já vêm de um tempo tão antigo que eles não podem mais ser aplicados de modo exato nas circunstâncias em que nós vivemos. Eles foram falados em línguas que não são mais línguas vivas. A gente não entende mais direito os próprios exemplos, eles são complexos, eles foram falados para um contexto que não é mais o contexto em que a gente vive.

Na etapa de degradação seguinte, os ensinamentos e os templos repentinamente perdem o sentido. É como se houvesse os textos todos, as imagens, e a gente olha e diz: “Isso tudo é uma velharia”. Como um neto olhando a biblioteca do avô. Aquilo tudo escrito com ph em vez de f, com y, aquilo tudo vem de dez reformas ortográficas atrás. O neto olha e pensa “uau, meu vô perdeu tempo aqui.” Aí a gente olha para aquilo e pensa: “Disso eu não preciso, isso é inútil, eu não entendo.” Então, a gente abandona aquilo, e desaparece o Dharma. Eventualmente, tem alguém que lembra alguma coisa, e mais nada. Eventualmente, os templos até viram museus, mas mais adiante o pessoal resolve fazer alguma coisa mais criativa ali, botar abaixo tudo mesmo e fazer uma praça, ou fazer uma prisão.

Enquanto isso, Maitreya está treinando e o Buda Primordial em cima: ‘vamo! vamo que a coisa tá feia!’. E Maitreya malhando, tomando whey, decorando tudo. ‘Já tá na hora?’; ‘Não, deixa piorar um pouco, depois nós vamos’. Aí pronto, vem Maitreya, o próximo, chega e diz ‘Eu sou o salvador’ e respondem ‘Olha, nós já matamos vários salvadores, não temos problema em matar mais um’. Mas dizem que Maitreya vem lindão, enquanto as pessoas vão estar todas com uma aparência decadente, porque o corpo vai se deformando e decaindo de qualidade junto com as emoções negativas e com a falta de lucidez. Aí vem Maitreya lindão, e todo mundo ‘Uaau Maitreya, que legal, como é que você fez?’ E ele: ‘Não, eu comecei a malhar e fiz meditação…’ ‘Uau, como é meditação?’ ‘Olha, a gente senta assim…’ Aí começa sempre com uma motivação meio problemática. Então, ele começa a falar o Dharma todo novamente.

Motivação

Então, os budas existem em algum lugar. Quando a gente diz isso, a nossa faixa 4 fica elétrica, alguma coisa dentro de nós se anima. Os mestres que vêm são emanações dos budas. E pensamos ‘uaaau!’. Em volta ninguém acredita, mas a gente, lá no fundo, tá acreditando que tem alguma coisa mesmo. Que tem alguma sabedoria, que tem alguma coisa profunda de fato. Então, esse é um caminho, um caminho também de motivação. Se a gente não tiver uma clareza sobre os budas, no mínimo a gente tem uma clareza de que a gente não tem ideia de onde as coisas surgiram. E tem alguma coisa super profunda aqui, porque, enfim, se a gente está iludido, tem alguma coisa sobre a qual a gente se iludiu. Eu posso não saber nada de nada, mas no mínimo tenho uma certa sensação de que eu to iludido. Eu não sei como isso começou, ta todo mundo preso dentro disso, mas a gente não ta sabendo como fazer. Então, pode surgir uma motivação desse tipo, uma motivação tipo faixa 4, uma motivação intuitiva em que não temos um foco em causalidades (do tipo ‘eu quero obter tal coisa, então eu vou fazendo isso para obter aquilo’). Pode não ter essa motivação causal, mas tem uma coisa misteriosa, algo que nos atrai. Essa motivação é interessante também, ela é alguma coisa que vai nos conectar. A gente vai espreitar esse movimento.

— Lama Padma Samten

 

Vídeo do ensinamento

Assista a partir de 35m26s: